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Descriminalização das Drogas

A discussão sobre as drogas são complicadas pelo enorme tabu que nós, brasileiros, temos em relação a esse tema. Embora não tenhamos a pior mentalidade possível – a maior parte de nós não acredita realmente em uma “guerra contra as drogas”, como se essas substâncias fossem soldados inimigos prontos para invadir nossa pátria amada -, ainda escolhemos ignorar a discussão e confiar no que jornais, revistas ou acadêmicos têm a dizer sobre o tema, terceirizando o serviço de pensar, entender e escolher um caminho.

Ao refletir sobre as drogas, legais e ilegais, visíveis e invisíveis, percebi que o principal problema não é a substância em si, mas a própria capacidade de se viciar dos seres humanos. Naturalmente, certos produtos têm um potencial maior de gerar viciados [embora certas pessoas sejam bastante resistentes]. Por outro lado, mesmo coisas aparentemente inofensivas, como jogos em flash online, ou até percebidas como benéficas, caso dos exercícios físicos, podem se tornar vícios, provocando crises de abstinência e tomando boa parte do tempo, da energia, dos pensamentos e da vida das pessoas.

Além disso, observando as drogas legais e ilegais é possível perceber que a divisão não foi realizada tendo como base critérios científicos, mas econômicos e sociais. Heroína, ópio e cocaína já fizeram parte dos produtos disponíveis no mercado local, enquanto café, chocolate e álcool já foram proibidos por conta de seus efeitos lesivos à saúde física e mental dos usuários. Por mais estudos que tenhamos relatando os efeitos nocivos do cigarro ou, pelo contrário, mostrando a incapacidade de determinar uma relação significativa entre danos ao cérebro e o uso esporádico do LSD, é improvável que a Souza Cruz tenha que encerrar as portas ou que vejamos cartelas de ácido à venda nos bares.

Talvez por conta da minha constituição psíquica, jamais senti o desejo de usar drogas e nunca experimentei qualquer coisa ilegal, mesmo tendo inúmeras oportunidades. Já bebi goles mínimos de diversos fermentados, destilados, drinques e batidas, sempre rejeitando o forte gosto de álcool. Fui criado em um ambiente de não-fumantes e nunca aderi aos tabagistas. Portanto, eu não teria o menor ganho pessoal com a descriminalização das drogas e não sofreria qualquer revés se criminalizassem cerveja e fumo.

Por isso, só consigo enxergar a questão do ponto de vista prático do governo. Descriminalizar as drogas – todas elas – seria um segundo passo inteligente. Primeiro porque produtos legalizados geram impostos, empregos formais e oportunidades de carreira. Conseguir estágio na fábrica de cocaína vai ser tão legal quanto entrar para o trainee da AmBev. Além disso, com a ANVISA, o poder público poderia fiscalizar a qualidade dos produtos oferecidos ao consumidor. Nada de cal, grama ou amônia no meio do que fosse comprado.

Contudo, eu falei em segundo passo porque ele deve ser precedido pelo verdadeiro diferencial: uma extensa campanha de conscientização nas escolas e nos canais de comunicação sobre os efeitos, positivos e negativos, de cada uma das drogas, além de uma pesquisa acadêmica séria sobre o vício e seu papel na sociedade humana. As crianças têm o direito de saber que “o homem é escravo daquilo de que não pode prescindir” e que fumar maconha ajuda a relaxar, mas o uso constante deixa os reflexos lentos e prejudica a memória de curto prazo.

Alegar que a descriminalização das drogas sobrecarregaria nossos hospitais parece algo desprovido de fontes e falacioso. Nossos hospitais já estão sobrecarregados com os usuários e viciados – é só que a gente ignora as estatísticas. Na verdade, por conta do controle sanitário, do esclarecimento público dos efeitos e da concorrência legalizada, é até possível que tenhamos uma redução no impacto sobre o orçamento de hospitais.

Seria uma medida radical e exigiria um preparo além do que o governo federal e os governos estaduais brasileiros costumam apresentar, além de uma radical mudança de perspectiva, mas foi onde cheguei após pensar um tanto sobre o assunto. Sei que é possível discordar, mas minha esperança é um debate com outras pessoas que raciocinaram por conta própria e buscaram várias fontes, não papagaios repetindo o que o rádio, a tevê, a igreja, o pai e a professora os treinaram a matraquear.

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Rota de Escape

Praticamente todos os adultos que conheci quando eu era criança e estava na escola me diziam que a infância era a melhor época da vida. Durante a adolescência, vários dos meus amigos que estavam nos 30 e poucos anos praticamente me imploraram para aproveitar o Ensino Médio, especialmente o 2º ano. Na universidade, alguns professores e os chefes no estágio falavam com nostalgia da época de faculdade deles – das festas, da rotina com os amigos, das férias de três meses.

As pressões autoimpostas e da sociedade só tendem a aumentar com o passar do tempo, a ponto de muitas pessoas de 40 anos ficarem em estado permanente de estresse e irritação, vivendo de forma miserável e irradiando toda a sensação negativa para a família, os amigos e os colegas de trabalho. Ainda assim, a retrospectiva acaba ocultando o fato de que juventude, adolescência e infância também tinham suas dificuldades, cobranças e angústias.

É uma tarefa complicada para um adulto imaginar que espécie de preocupações uma garotinha ou um menininho de cinco anos podem ter, mas basta lembrar que esses pequenos seres estão ainda aprendendo que tipo de ações agradam ou desagradam os pais, ainda não possuem noção de horas e compromissos e não atingiram a mentalidade de perspectiva para entender conceitos abstratos como “só no final de semana”. Na escola, precisam ao mesmo tempo corresponder às expectativas dos pais, atender às orientações das tias e transitar socialmente entre coleguinhas mais novos e mais velhos.

Logicamente, as crianças não analisam sua situação em palavras tão complexas, mas isso não quer dizer que elas não sintam toda essa pressão. As coisas apenas tendem a se agravarem quando avançamos alguns anos para o início da adolescência, quando o próprio corpo é fonte de confusão e as interações com os amigos, inimigos, rivais, ídolos, interesses românticos e sexuais são fontes quase infinitas de drama e ansiedade.

Na nossa sociedade brasileira moderna, a pressão para ter um desempenho satisfatório no ENEM e ser admitido em uma boa universidade, pública ou particular, participa dos anseios de uma geração que discute continuamente através das redes sociais temas banais como os episódios das séries mais populares e profundos como o papel da Polícia Militar e a identidade de gênero. Os atritos e demandas dos círculos sociais continuam existindo de forma similar à da adolescência, com a diferença de que agora se espera uma maior autonomia e responsabilidade emocional.

Tanta coisa ao mesmo tempo gerando pensamentos carregados podem provocar um verdadeiro curto-circuito no sistema mental de qualquer pessoa. Para isso, a maior parte adota para si uma ou mais rotas de escape. Nesse contexto, a diferença não vai estar tanto na legalidade ou não desse escape, mas na natureza das relações sociais que foram construídas até aquele momento e nas oportunidades que aparecerem.

Fugir do cotidiano não é novidade alguma. Elohim criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Os dias úteis são cinco [em teoria], enquanto sábado e domingo costumam ser reservados para o lazer e para as tarefas domésticas acumuladas. Os alunos têm direito a uma pausa de duas semanas no meio do ano [antigamente, um mês inteiro] e mais dois meses no Verão [antigamente, até três meses; alguns colégios mal concedem um mês e meio os dias de hoje]. Os trabalhados celetistas têm direito aos feriados oficiais e a 30 dias [úteis ou não] de férias [exceto naquelas empresas em que as férias são de mentira ou em que sempre são atrasadas/compradas].

As viagens são celebradas como ótimas escolhas para se escapar da rotina – pena que atualmente já não são uma lembrança pessoal de descanso, mas uma gincana de tirar fotos nos lugares em que todo mundo vai para mostrar que você também esteve lá. O álcool, através do happy hour e da ida ao bar no final do expediente da sexta-feira, é aceito como uma prática social normal. O cigarro, como mecanismo rápido de alívio de tensão, já não possui tanta aceitação e os fumódromos nas empresas são quase gaiolas de espécimes em extinção.

Os excessos são condenados em teoria e hipocritamente ignorados na prática – um porre no sábado é considerado aceitável desde que o funcionário se apresente para o trabalho na segunda às 8 horas. O uso de substâncias ilegais ou o uso ilegal de substâncias também costuma ser um assunto tabu e jamais levantado em conversas profissionais ou de pessoas com alguma classe. Hábitos considerados exóticos – como idas a clubes de swing ou grupos de meditação tibetana – são cochichados, mas nunca abordados diretamente.

Todas essas considerações demonstram que a sociedade compreende a necessidade de um alívio temporário das obrigações e responsabilidades, mas não sabe lidar com esse aparente “tempo perdido” para os indicadores maníacos de produtividade financeira. Não sabe tampouco como encarar as pessoas que escolhem vias diferentes das preconizadas e prefere tapar os olhos o máximo possível para não ter que questionar trabalhadores bem-sucedidos que cometem ilegalidades em seu tempo livre.

O único problema real que a via de escape apresenta é quando ela se torna muito mais atraente do que a rotina. O descanso sabático é para ser um período de renovação de forças e de mudança de perspectiva. Quando se torna um momento extremamente aguardado a ponto de roubar a atenção dos dias comuns, é óbvio que o cotidiano está pesando demais e as pressões estão começando a arruinar o equilíbrio psíquico da pessoa.

Em uma situação dessas, atacar uma via de escape recorrente seria como tratar somente da febre causada por uma infecção e não da enfermidade em si. Querer fugir da mentalidade diária e de suas situações associadas é um sinal muito claro de que há uma incompatibilidade entre coração e vivência. Infelizmente, o interesse por indivíduos sãos física e psiquicamente, de mente e espírito, é cada vez menor, desde que os números do dinheiro continuem subindo.

Drogas Legais Invisíveis

A discussão sobre as drogas já seria algo complexo e aberto a múltiplas interpretações sem necessidade da influência de grupos de poder para mudar o foco do debate e tentar impor uma visão que não tem como base o melhor para o país, para a sociedade ou para o cidadão. O discurso pronto que é vendido sobre drogados e viciados em maconha e cocaína, além de inconsistente, esconde propositadamente os males das drogas legalizadas, como o álcool, o cigarro e os remédios.

Após pensar sobre tudo o que chamamos de droga e considerar suas características em comum – o dano à saúde ao serem utilizadas em quantidades exageradas, a propensão para viciar cuja potência varia de acordo com a substância e o indivíduo, os efeitos prazerosos que diminuem com o tempo de uso -, notei que faltava mais um campo a ser explorado antes de discutir a grande pergunta: quais drogas devem ser descriminalizadas?

A porta de entrada para notarmos esse campo “oculto” do debate das drogas pode ser o contato com algumas raras culturas que banem não apenas as drogas ilegais, o cigarro e o álcool, mas uma outra bebida extremamente popular e cujos efeitos são encarados com normalidade: o café. A cafeína é proibida entre os mórmons por ser um estimulante ilícito da mente, gerando um estado alterado de consciência e privando a pessoa do controle normal da sua mente e de suas ações. O café, então, tem a distinta condição de droga ilegal para algumas pessoas e de droga legalizada invisível para outras.

Pensando em café, é fácil avançar para um segundo grupo de drogas legalizadas que raramente são vistas dessa maneira: os refrigerantes. Execrados por nutricionistas, dentistas e médicos por sua absoluta falta de valor nutritivo, as bebidas gasosas estão presentes em toda a civilização, Ocidental e Oriental. A principal marca mundial, Coca-Cola, é tão poderosa que arrancou os Jogos Olímpicos de 1996, ano do centenário das Olimpíadas modernas, de Atenas, berços dos Jogos na Antiguidade e sede da primeira edição, 1896, e os levou para Atlanta, nos EUA, sede geral da empresa.

O mercado é tão grande que os refrigerantes acompanharam a mudança dos tempos e popularizam suas versões “light” e “zero” para agradar os consumidores que queriam beber sem engordar [muito]. Tentando alcançar até mesmo os bebedores de suco e água, os produtos chamados ridiculamente de “água flavorizada”, como H2O, são refrigerantes com gosto leve e a promessa de não engordar [muito].

As propagandas voltadas para o consumidor infantil são inúmeras e francamente mal-intencionadas. Infames por seus componentes, os nuggets ou empanados de frango são vendidos como lanches gostosos. Boa parte dos biscoitos de “chocolate” são péssimos para a dieta das crianças e as informações nas embalagens são desleais – fácil pensar no exemplo do Trakinas, em que a tabela nutricional indica os valores para “dois biscoitos e meio” – que criança come apenas dois biscoitos e meio?

Para todas as idades e especialmente para as mulheres no período sensível da TPM, os chocolates têm enorme apelo, especialmente os brasileiros, recheados de açúcar e gordura. Para a maior parte de nós, acostumados a comer “um chocolatinho” com frequência, é difícil enxergar o doce como uma droga, mas qualquer um que tenha filhos sabe quão rápido é o efeito de um único Bis ou Kinder Ovo em uma criança de quatro anos. Em cerca de quinze minutos, eles se transformam em monstrinhos hiperativos, gritando, correndo e enlouquecendo qualquer responsável.

Eu posso literalmente apresentar dezenas de exemplos de comidas e bebidas cotidianas – leite condensado, açaí, guaraná, vitaminas, castanhas, nozes, balas, hambúrguer, fast food em geral, etc., etc. – que são drogas completamente legais e absolutamente invisíveis pelo simples motivo de que o enfoque está errado por princípio. Pensando em todos esses exemplos, parece exagero e, de fato, é um exagero chamar tudo isso de droga. Contudo, essas coisas todas viciam e fazem mal para a saúde na mesma linha que maconha, álcool e crack, com potências e ritmos diferentes, claro.

E agora, o caminho é proibir toda e qualquer substância que pode se tornar um vício? Mas e se abandonarmos a visão de “substância” como algo ingerido? Encontraremos várias outras drogas – jogos on-line, carteado, videogames, facebook, mensagens de texto, a própria internet, blogs, quadrinhos… um palestrante no TED, cirurgião, contou uma vez sobre seu vício em música clássica que chegou ao ponto de fazê-lo largar uma operação para correr e comprar o mais recente lançamento!

A saída para esse impasse pode ser encontrada olhando todo o problema de longe e percebendo que estamos gastando tempo e energia na luta contra um inimigo tão ilusório quanto “terrorismo” e “vândalos”.

Drogas Ilegais

Ao me deparar com a questão do que, afinal, são drogas, resolvi começar a pensar por aquelas que são legalizadas, a ponto de algumas pessoas esquecerem sua condição de drogas – o álcool, o cigarro e os remédios. Isso me ajudou a entender que existem muitas drogas reconhecidas como tais e que são de livre acesso [teoricamente, desde que você seja maior de idade].

Ainda que ponderando o demérito em termos essa estranha separação entre drogas legais e ilegais quando as legalizadas causam danos profundos à saúde e à sociedade, isto não significa que todas as substâncias são igualmente ruins ou igualmente boas. Seria o mesmo que dizer que a cerveja tem o mesmo potencial de embriaguez que a tequila ou o uísque.

Como não sou estudioso da área biomédica e, portanto, não possuo conhecimentos aprofundados da classificação científica dos compostos químicos, vou me basear na visão comum e leiga dos grupos de drogas ilegais. A grosso modo, a primeira divisão está entre as drogas naturais e as drogas sintéticas. As naturais teriam como base ervas [maconha, haxixe] ou cogumelos [chá de trombeta], enquanto as sintéticas ou artificiais seriam produzidas em laboratórios de alta tecnologia [cocaína, metanfetamina] ou baixa [oxi, crack].

A cocaína é um bom exemplo da dificuldade desta separação – embora ela tenha como origem a folha da coca, passa por uma série de processos laboratoriais para se transformar no pó branco que se vende em saquinhos. Mesmo assim, não se espera que as “ervas naturais” usadas como drogas recreativas tenham vindo diretamente da floresta, sem alteração no caminho.

Essa classificação é largamente utilizada pelos usuários de maconha, sálvia, cogumelos alucinógenos e outras coisas “da natureza” sob a alegação de que “é natural, não faz sentido proibir” ou que “os índios usavam há milênios”. É uma argumentação fraca, baseada em um ideal de selvagem em equilíbrio perfeito com a natureza que não corresponde aos estudos históricos mais recentes. Mesmo levando em consideração uma comunidade indígena naturista e ecológica, as drogas geralmente eram reservadas para cerimônias e momentos específicos.

Um bom exemplo de uma droga legalizada apenas em contexto ritualístico é a ayahuasca amazônica, muito conhecida no Brasil através da Igreja do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal. Na verdade, uma combinação de ervas [e cipós, pedaços de casca de árvore, raiz, dependendo da versão], a ayahuasca causa grandes alucinações, mas só era usada em rituais. A ANVISA permite seu uso nesse contexto, mas é possível encontrar pessoas fazendo uso da substância em redutos de drogas ilícitas.

As ervas naturais também costumam ser defendidas sob o pretexto dos efeitos medicinais que possuem. Apesar da verdade de serem boas soluções para certos males físicos e psíquicos, a grande maioria dos usuários não faz uso como remédio para uma dor específica, mas para se divertir. A maconha, aliás, grande exemplo deste caso, também era uma droga ritualística, sendo a erva sagrada de Shiva, na Índia.

Apesar de tudo, as drogas naturais costumam ser menos danosas, física e socialmente, e gerar menor propensão ao vício. Por outro lado, as drogas chamadas de sintéticas geralmente são estimulantes potentes que prejudicam o sistema nervoso e o cérebro do usuário. O método de utilização – cheirar, injetar, colocar na boca e até usar como supositório – também tem seus prejuízos específicos. Algumas pessoas destroem as veias do braço de tanto injetar heroína a ponto de precisar recorrer à aplicação na virilha, por exemplo.

Mais caras, as drogas artificiais possuem maior poder de vício e geralmente circulam entre pessoas com mais dinheiro. Uma das exceções é o crack, que é a versão bem mais potente, perigosa e prejudicial da cocaína. Os usuários rapidamente se deterioram, perdendo completamente o controle da vida e se transformando em zumbis – os “crackudos” fáceis de serem avistados na linha do trem, no Centro do Rio ou perto da Avenida Brasil.

As combinações de compostos químicos são quase infinitas e, por isso, existem muito mais drogas artificiais sem nomes ou de alcance apenas local do que drogas naturais. Os efeitos a longo prazo do uso dessas variações são largamente desconhecidos e dificultam uma análise objetiva até mesmo de quaisquer benefícios que possam causar.

É preciso reservar um nicho especial para o LSD, o ácido lisérgico homenageado pelos Beatles em “Lucy in the Sky with Diamonds”. Apesar de ser uma droga do grupo das artificiais ou sintéticas, o LSD não causa vício químico [o que não isenta o risco de vício psicológico], não causa danos físicos aparentes e é extremamente improvável de provocar overdose. Contudo, o ácido pode ampliar os sintomas de esquizofrenia em quem já tem propensão à doença.

Existem várias outras separações das drogas ilegais – entre estimulantes e depressivas, por exemplo, ou entre as que provocam alucinações e as que não provocam. Algumas drogas são chamadas de enteógenas por, teoricamente, proporcionarem um encontro com a divindade interior. Quando um assunto é tabu, as pesquisas isentas se tornam mais raras porque a sociedade se recusa a pensar sobre o assunto.

Mesmo este artigo é limitado. Existem diversos outros aspectos sobre cada uma das drogas que eu citei, sem contar os estudos comparativos. Além do mais, como jamais tive interesse em experimentá-las, não posso fornecer relatos pessoais, apenas minhas impressões ao observar usuários e ouvir histórias de fontes confiáveis.

Apesar de tudo, fica fácil perceber que as drogas ilegais não são todas iguais e que, na realidade, não só cada uma tem suas propriedades específicas, mas também seus efeitos variam de caso em caso. Da mesma forma que algumas pessoas nascem com propensão ao vício do álcool e outras são capazes de beber todos os dias da faculdade e passar o resto da vida sóbrias sem dificuldades, as drogas ilegais são apenas uma fase para alguns e o vício final para outros.

Por enquanto, caminhei pelo lado fácil: identificar as drogas que são chamadas de drogas. E quanto às drogas invisíveis?

Drogas Legais Visíveis

Ao ter minha visão sobre drogas desafiada e arruinada, fui forçado a refletir: “o que são drogas, afinal?”. Uma pergunta complicada com uma resposta não menos desafiadora. Pensei em tudo o que era chamado de droga: maconha, cocaína, crack, heroína, ecstasy, anfetamina, etc. Todas substâncias que produzem efeitos prazerosos, mas que causam danos ao corpo. Mais do que isso, elas alteram a química cerebral, gerando vício e exigindo doses cada vez maiores e cada vez mais frequentes para se tentar emular a sensação original [naturalmente, em ritmos diferentes – o crack vicia com mais potência e mais rápido que a maconha].

Só de pensar sobre essas características dá pra perceber o motivo pelo qual cigarro e álcool também são chamados de drogas, embora legais. Os dois são viciantes, os dois proporcionam prazer em troca de danos corporais e os dois começam devagar e logo se tornam um hábito constante e maquinal. O cigarro tem a desonra de ser especialmente nocivo porque sua fumaça afeta as pessoas ao redor, os chamados “fumantes passivos” ou “secundários”.

Por que cigarro e álcool são especiais entre as drogas, legalizados e impunes, enquanto todo o resto do conjunto entra no rótulo “ilegal”? Os empresários da indústria da nicotina e do álcool certamente fizeram muito esforço junto aos governantes e aos congressistas para impedir que seus produtos fossem banidos junto com os demais, mesmo sabendo que o álcool é responsável por mais da metade das mortes causadas pelas substâncias tóxicas consumidas nos dias de hoje e que o cigarro está por trás de 80% dos cânceres de pulmão e aumenta em quase dez vezes as chances de derrame cerebral.

Poderia ser argumentar que beber um ou dois copos de cerveja na praia ou fumar um cachimbo a cada duas noites não faz mal e até tem algum benefício. Verdade. Só que o mesmo vale pra maconha, com seus efeitos medicinais, e até o velho Papa Leão XIII tomava vinho com cocaína para ajudar na saúde, o Vin Mariani! Desta forma, não é possível atribuir a liberação dos dois à sua ação salutar em pequenas quantidades.

Fica evidente que se trata de uma luta feroz de interesses quando se percebe que parte do governo quer diminuir a influência das empresas dos dois setores e outra parte está a serviço delas. Apenas no ano passado a ANVISA conseguiu proibir a venda de cigarros com sabor, dos quais o mais conhecido é o mentolado. Essa linha tem como objetivo atrair os consumidores jovens, muitos menores de 18 anos, com cigarros “sem gosto de cigarro”. A medida entrou em vigor em agosto de 2012, mas não valeu para as principais fabricantes, Souza Cruz e Philip Morris, que conseguiram uma liminar para manter seu mercado.

Ainda mais complicada é a situação dos remédios. Hoje em dia, as farmácias cada vez mais se parecem com mini-supermercados, vendendo produtos alimentícios e cosméticos em geral. Além disso, é cada vez mais raro encontrar uma com o antigo nome: drogaria. Os remédios nada mais são do que drogas permitidas e reguladas para tratamentos de saúde. Existe toda uma discussão sobre a perversidade da indústria farmacêutica, que utiliza métodos baixos para fazer com que os médicos recomendem seus remédios, mas é muito extensa e não é a pauta de hoje.

Muitos adultos são viciados em remédios “tarja preta”, aquelas cuja venda não apenas é controlada, mas também deveria ser reservada apenas para casos graves. O estereótipo da socialite viciada em tranquilizantes para dormir é parte do passado – antidepressivos e calmantes são vendidos aos milhões em muitas drogarias que ignoram a necessidade de receita ou que têm acordo com médicos que desonram a profissão. A Ritalina, utilizada para aumentar a concentração e deixar as crianças mais domáveis, muitas vezes é ministrada desde antes da adolescência.

Mesmo os remédios que não possuem tarja vermelha ou preta, como aqueles contra a dor de cabeça, apresentam graves riscos de vício. Muitas pessoas não apenas andam com uma farmácia na mochila ou na bolsa, mas também tomam o “remedinho” todos os dias, às vezes de manhã e de noite. Heck, até mesmo o descongestionante nasal, como o Sorine e o Neosoro, podem se tornar um fardo e causar abstinência!

Droga por droga, não adianta chamar de viciado só quem fuma maconha… mas além do poder econômico da indústria do cigarro, do álcool e dos remédios, deve haver mais motivos para que as drogas ilegais sejam contra a lei, certo?

Drogas

Nunca senti a menor atração por drogas e nem mesmo curiosidade para experimentar e sentir os efeitos. A ideia de ficar chapado ou de ficar louco por um tempo jamais pareceu tão divertida assim. Conheci uma pessoa que dizia ter não nascido geneticamente programada para acreditar em Deus. Acho que nasci programado para não ter interesse em me tornar usuário de drogas.

Por muitos anos, mantive larga distância de qualquer substância ilegal. Meus conhecimentos sobre o assunto eram consideravelmente superficiais e eu tinha verdadeira ojeriza tanto pela coisa em si quanto por quem usava. Acho que foi dessa época que nasceu minha impressão de que a enorme maioria das drogas não possui grande diferença entre si. Todas eram terríveis agentes de corrupção mental e psíquica e os usuários e viciados eram pessoas com pouca força de vontade, verdadeiros fracos e fracassados.

Quando me tornei adulto, conheci alguns usuários de maconha, quase todos fazendo bem o estereótipo de hippie ou de seguidores de Jah, com suas bandeiras do Império Etíope. Alguns deles, no entanto, passariam facilmente por “pessoais normais” e faziam faculdades ou trabalhavam em profissões que nunca são associadas a essa erva – Engenharia, Direito, Medicina, Administração, Ciências Contábeis…

Meu contato com os efeitos do “cigarrinho do capeta” não foi lá muito positivo. As pessoas ficavam lentas e as conversas perdiam o sentido rapidamente. Alguns que “davam um dois” ficavam paranoicos e entravam numa “bad” completamente sem motivo. Por fim, o pessoal que “fumava unzinho” cinco ou seis vezes por dia geralmente continuavam com o raciocínio lento e o esquecimento pelo resto do dia. Tudo isso só me irritava e minha opinião sobre as drogas só piorou.

Apesar dessa situação, uma noção curiosa começava a se desenvolver na minha mente, de forma muito embrionária, sem que eu pudesse expressar ou mesmo perceber que essa ideia estava lá. Descobri que alguns amigos meus, de vários ambientes diferentes, usavam drogas de forma recreativa. Não apenas maconha, mas “dropavam” LSD [ácido ou “doce”], tomavam ecstasy [“bala”], fumavam haxixe e mais outras coisas que eu nem sequer sabia que existiam no Brasil.

Era perturbador. Eu detestava as drogas e entendia os viciados como falhas. Sabia que o consenso médico dizia se tratar de uma doença, mas eu não conseguia deixar de sentir menosprezo por quem escolhia essa rota. Tudo piorava quando entravam em jogo os eufemismos que pareciam ter se tornado regra em todo o vocabulário. Não bastasse empregado ter se tornado “colaborador” e taxa/imposto ter virado “contribuição”, viciado passava a ser chamado de “adicto” e até mesmo os maconheiros passavam a se identificar como “canabistas”, exaltando uma teórica “cultura da cannabis”.

Por outro lado, eu convivia com aquelas pessoas, várias delas diariamente. Alguns eram meus amigos e a grande maioria eu não hesitaria em defender como “boa pessoa” em qualquer discussão sobre reputação. Quer dizer, exceto pelo fato de que usavam as malditas drogas. Como aquelas pessoas podiam parecer boa gente e, ainda assim, serem tão ruins a ponto de recorrerem às drogas? Elas não tinham mudado, no final das contas, a minha percepção delas é que tinha se alterado quando descobri que elas eram contraventoras, elementos contrários à moral e aos bons costumes…

Minha mente lógica só aceitava uma solução: minhas premissas estavam equivocadas. Pensei nas drogas. Eu continuava desgostando delas tão intensamente quanto antes, mas agora eu adquirira uma escala de pequena variação nesse desgosto. As sintéticas eram as piores; aquelas baseadas em ervas vinham em seguida – eu aceitava o argumento de que índios e outros povos as usavam ritualisticamente, mas rejeitava a validade de usá-las de forma recreativa; por fim, em um patamar isolado, estava o LSD, uma droga esquisita que eu não conseguia condenar completamente.

Pensei, então, nas pessoas, nos usuários, nos viciados, nos “adictos”. Eu estava enganado e meu erro fora reforçado continuamente pela propaganda em massa dos péssimos veículos de comunicação que temos no mundo. Os usuários de droga eram, por definição, pessoas, com as mesmas faltas e virtudes que qualquer outro ser humano. Era ridículo demonizá-los por conta de uma só característica, fosse um hábito, uma escolha ou uma doença.

Mas isso era apenas um aspecto de uma discussão enorme e de profundas implicações. Até então, eu enxergara como drogas um conjunto nefasto de substâncias ilegais distribuído por bandidos em uma rede subterrânea de mal-feitores. Eu ainda acrescentava a esse grupo cigarro e álcool, que causam grande prejuízo à saúde de bilhões de pessoas ao redor do planeta e que eram legalizados. Eu havia me ludibriado e permitido que minhas ideias fossem conduzidas pela propaganda de quem tinha interesses próprios. Precisava pensar com a minha cabeça e foi isso que eu comecei a fazer.

O que são drogas, afinal?