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por Hugo

Infelizmente, temos disseminada na politica há dois séculos a divisão entre “direita” e “esquerda”, como se a atuação política fosse unidimensional e limitada a andar nessa escala do azul para o vermelho. Os estadunidenses até usam esses termos como ofensa quando desejam, mas adotam um esquema diferente, de “liberal” e “conservador”, embora tenha exatamente a mesma falha de limitação.

Os artigos relacionados à questão das drogas que publiquei foram, na realidade, uma expressão dos pensamentos que evoluíram dentro da minha mente ao entrar em contato com diferentes pontos de vista e, acima de tudo, pensar por minha própria conta e tentar entender melhor o que eu achava razoável no assunto.

Nesse caminho, percebi que temos, como sociedade ou grupo de seres humanos, um problema grave em reduzir nossos debates ao ponto errado. Quando falamos em saneamento, discutimos a quilometragem das tubulações e não a forma de tratamento dos dejetos e o local onde são despejados. Quando entramos no assunto dos engarrafamentos, escrevemos sobre as multas de trânsito, a falta de vagas e a disputa entre ônibus x carros, quando deveríamos estar pensando em melhor ocupação do espaço urbano para que as pessoas precisem se deslocar menos para trabalhar, estudar ou se divertir.

Além disso, temos outra tendência que se originou de necessidades práticas, mas que também produz resultados bastante adversos: rotular, categorizar e classificar tudo com que entramos em contato. Assim, nossa visão de gênero e sexualidade é o simples “M” ou “F”. No auge de pretensa boa vontade, existem lugares que dão a opção de “Não desejo declarar”.

Todo o debate sobre os gays vai acabar fazendo com que alguma mente pouco esclarecida crie uma nova caixinha com “G”, sendo que identidade de gênero é bem diferente de “por quem eu me atraio”. “G” poderia aparecer com “H”, de Hetero, “B”, de Bissexual e “A”, de Assexuado, mas ainda seria uma simplificação de algo que não pode ser reduzido a letras em um formulário.

Nós somos, por natureza, compostos por múltiplas camadas. Esse reducionismo, como eu disse, tem uma função prática: é mais fácil para a nossa mente aplicar certas etiquetas às pessoas para que possamos fazer uma estimativa rápida do comportamento que devemos esperar da parte deles. Se criarmos um estereótipo de jovem heterossexual branco rico – ou se comprarmos um que seja vendido por propaganda de grupos, o que e um debate em si -, ao encontrarmos uma pessoa que se encaixe mais ou menos nessa categoria, já “saberemos” o que esperar.

Claro, é um erro, como toda generalização. Aliás, na verdade, o erro está em generalizar e ficar satisfeito. A generalização é como a Wikipedia: um bom ponto de partida para fins práticos. Como nas equações diferenciais, faz bem primeiro encontrarmos a solução geral para um problema. No entanto, devemos também achar a solução particular que realmente responde o que desejamos saber.

Às vezes, as pessoas correspondem muito a um estereótipo, exceto por um ou dois pontos. Outras vezes, não são nada do que esperávamos. No fim, o estereótipo é uma imagem que nunca se prova verdadeira, especialmente porque costuma ser congelada no tempo e as pessoas estão em constante mutação através dos anos.

Prescindir do estereótipo, da etiqueta, da categorização é bastante complicado. Não vou fingir que sei fazer isso – na verdade, talvez tenha uma tendência até maior do que a média de classificar as pessoas de acordo com características que tenho na minha cabeça. Mesmo assim, eu procuro fazer um esforço para ser receptivo e tentar enxergar o outro como ele realmente é, não como eu imagino que ele seja.

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