A Espada na Pedra

por Hugo

“A Espada na Pedra” [The Sword in the Stone] é o nome do primeiro livro da série de T. H. White “O Outrora e Futuro Rei” [The Once and Future King]. O nome vem da inscrição no túmulo do Rei Arthur, que promete que o mítico governante da corte de Camelot um dia retornará para comandar novamente a ilha britânica.

Em comparação com os outros três livros que compõem a série, “A Espada na Pedra” é como um conto de fadas na mesma linha dos filmes da Disney – não por acaso a história recebeu uma versão animada vendida aqui no Brasil como “A Espada Era a Lei”. Apesar de ser um romance que conta sobre a infância e os aprendizados do futuro Rei Arthur, White obviamente lança o holofote sobre o mago Merlyn.

De fato, a história só engrena e se torna interessante quando Arthur se perde na Floresta Sauvage e topa com a cabana do grande nigromante. Sua aparência suja, as falas repletas de referência ao futuro, tanto da história quanto do nosso mundo, a cabana povoada de invenções fantásticas e Archimedes, a coruja companheira que dá nome à nave em Watchmen, tornam o personagem carismático.

Merlyn entende a importância da sua função ao educar o futuro Rei. Sabe que o garoto vai ser o exemplo e a inspiração de séculos. Sua Ordem de Cavalaria será sempre usada como referência sobre heroísmo e dedicação a uma causa nobre. Seu esforço para mudar a visão sobre a guerra como um esporte de nobres terá repercussões permanentes.

Ao mesmo tempo, o mago Merlyn também sabe qual será o final dessa história. Ele conhece os eventos que se avizinham e não apenas tem ciência de que, em breve, ficará preso em uma caverna devido aos caprichos da Senhora do Lago, mas também que os atos do jovem Arthur terminarão trazendo sua ruína, em consonância com a história iniciada por Uther Pendragon.

O método de ensino do bruxo é a transformação do seu pupilo em animais [e também, apesar de não ser mostrado, em vegetais e até mesmo minerais] para que ele compreenda melhor como todas as formas de vida se organizam e pensam. A princípio, parece um recurso infantil, para estimular a imaginação das crianças, mas é fácil perceber como White procurou usar as histórias como meio de transmitir sua visão sobre o espírito belicoso do homem.

De todas as transformações, duas merecem um destaque em particular. Quando Arthur se torna uma formiga, ele tem a experiência de viver sob um regime opressor e totalitário. É curioso como a linguagem é parte do processo da dominação e imediatamente somos remetidos à novilíngua de 1984. No idioma das formigas, só existem duas qualidades: “done” e “not done”. Uma tarefa concluída, naturalmente, é “done”; mas uma formiga fora de seu posto, desorientada, ferida ou rebelde é “not done”. Agradável é “done”, assustador é “not done”, e assim em diante. “Good” e “ungood”, mas ainda mais voltado para o utilitarismo.

A segunda transformação que merece atenção é, na realidade, uma adição posterior de White. Arthur é transformado em um ganso selvagem e experimenta a vida em uma comunidade onde o conceito de posse, de fronteiras e guerras não apenas é alienígena, mas é considerado ofensivo. Nesse contexto, dá para imaginar que se White vivesse hoje, teria incluído também uma discussão sobre o amor livre.

Um demérito notável do livro é seu final apressado. White opta por simplesmente cortar vários anos da vida de Arthur e Merlyn e parece correr logo para chegar na parte da “espada na pedra”. A tensão é muito breve e talvez o motivo seja porque o autor tem consciência de que todos sabem como Arthur deve se tornar Rei.

As referências anacrônicas são interessantes, tentar entender como Merlyn enxerga o mundo a partir de sua relação única com o tempo é desafiador e vários personagens secundários têm carisma – o meu preferido é o bom, velho e atrapalhado Rei Pellinore, na sua eterna demanda atrás da Fera Demandante [Questing Beast]. No final das contas, é uma leitura que vale a pena, tanto para adolescentes quanto para adultos.

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