O Castelo de Ar que Foi Explodido

por Hugo

Desta vez, a controvérsia em relação ao título do terceiro livro da saga Millennium é maior: a versão sueca estampa na capa algo como “O Castelo de Ar que Foi Explodido”, mas o tradutor do livro em inglês afirma, no primeiro comentário em um artigo deste blog, que o manuscrito original sueco vinha com o título de “A Rainha no Castelo de Ar”, bem próximo do brasileiro “A Rainha do Castelo de Ar”.

A trilogia escrita por Stieg Larsson realmente é fantástica como um conjunto. Apesar disso, existe uma diferença de qualidade entre os livros, onde o primeiro é o que tem a trama melhor amarrada e o ritmo mais regular, enquanto o terceiro sofre com uma desigualdade de passo entre as histórias paralelas, a profusão de personagens com pouca caracterização e, no geral, uma narrativa inferior.

Isso não quer dizer que o livro seja mal escrito ou que não tenha excelentes cenas ou discussões. Em um dos maiores momentos de “púlpito do autor”, Érika chama um jovem jornalista para uma conversa em particular e explica o papel do jornalista investigativo, que não apenas deve se certificar da veracidade das informações coletadas, mas também questionar as intenções de quem divulgou os dados.

É fácil perceber como temos falta dessa espécie de pensamento nas redações dos nossos jornais quando vemos manchetes e reportagens relatando boa parte do que ministros, deputados, senadores e políticos em geral dizem sem o trabalho de conferir se existe um bom embasamento para aquelas projeções ou informações.

Além disso, não existe qualquer trabalho sério no sentido de esquadrinhar a real situação da economia brasileira e não apenas analisar numericamente os valores de IPCA, IGP-M, variação do aluguel ou do IBovespa. A discussão nunca é sobre por que o PIB trimestral caiu em relação ao mesmo período do ano anterior, somente sobre qual foi o percentual de diferença e quais respostas foram dadas sobre o assunto pelos políticos relevantes.

Outra linha da trama, que acaba perdendo bastante força no final, discute sobre as empreiteiras, grandes empresas e indústrias e sua atuação na economia do país. Larsson aproveita a oportunidade para ventilar sua visão de que não apenas a Bolsa de Valores não corresponde ao estado de saúde da economia, mas que boa parte dos controladores majoritários das ações está preocupada tão somente com a fortuna pessoal e não tem o menor interesse na situação dos trabalhadores que são seus funcionários.

A visão do funcionamento de um grande jornal conservador pode facilmente ser transposta para o funcionamento das redações brasileiras ou americanas, em geral. É fácil querer identificar o SMP com o Globo, mas a verdade é que esse estilo de gestão acontece em todo veículo de grande circulação, independente das tendências filosóficas ou políticas dos donos. A produção da Caros Amigos segue a mesma linha que a da Folha de São Paulo, só que em sentidos aparentemente distintos.

O enredo principal é interessante, mas não tanto, talvez porque as coisas se encaminham de tal forma que é como se víssemos o tal “castelo de ar” do título mirando todas as suas defesas contra o cavaleiro solitário em frente ao portão sem notar os trezentos tanques que estão se aproximando por trás. A expectativa é gerada pela tensão e quando você olha um campo de batalha montado assim, sabe bem o resultado sem nem ver o combate em si.

A discussão sobre o serviço secreto merece seu destaque, especialmente em tempos de Edward Snowden, PRISM e NSA. Muitos livros e filmes já foram escritos sobre a paranoia da Guerra Fria e os planos mirabolantes e absurdos da polícia secreta de diversos países. Os espiões duplos e triplos, as intervenções em governos e revoluções aliadas e inimigas, os programas de vigilância, as detenções, torturas, sequestros e assassinatos cometidos à revelia da lei, tudo isso faz parte do repertório dessa bibliografia.

Essa mentalidade dificilmente é compatível com a realidade do início do século XXI. Os Estados Unidos estão sofrendo um enorme revés com a atitude de Snowden, que está sendo caçado e, se extraditado para os EUA, certamente ficará preso para o resto da vida. Mesmo um governo visto como liberal e “bonzinho” como o de Barack Obama serve, obviamente, primeiro aos propósitos dos controladores do país e, depois, aos interesses do povo.

Apesar de tudo, são necessárias medidas de segurança internas, conforme o próprio Larsson, através de Blomkvist, assevera no romance. Os malucos que pretendem explodir um prédio para promover uma causa ou os extremistas políticos e religiosos precisam ser observados e detidos antes que causem grave mal aos demais cidadãos e é esse o papel principal de uma organização de investigação interna.

Por falar em Blomkvist, suas dimensões nunca foram muito profundas e se tornam mais limitadas neste terceiro livre. Apenas duas características se destacaram: a primeira, explícita, é o seu charme quase irresistível para as mulheres. A segunda, notável por ausência, é sua relação com a família. Se a filha aparece rapidamente no primeiro livro e é apenas mencionada em pensamento no segundo, desta vez sequer aparece na trama. Esse é um pai que não dedica cinco minutos da semana para saber como as coisas estão com sua menina.

No final das contas, não deixa de ser positivo o fato de que os personagens principais possuem defeitos – a própria Lisbeth, tão incrível, se prejudica repetidamente por ser tão intransigente em sua individualidade e independência. Mesmo que o livro não seja impressionante, ainda é um fecho aceitável para uma trilogia que deveria ter dez livros e que certamente ainda tinha muito o que render.

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