Descriminalização das Drogas

por Hugo

A discussão sobre as drogas são complicadas pelo enorme tabu que nós, brasileiros, temos em relação a esse tema. Embora não tenhamos a pior mentalidade possível – a maior parte de nós não acredita realmente em uma “guerra contra as drogas”, como se essas substâncias fossem soldados inimigos prontos para invadir nossa pátria amada -, ainda escolhemos ignorar a discussão e confiar no que jornais, revistas ou acadêmicos têm a dizer sobre o tema, terceirizando o serviço de pensar, entender e escolher um caminho.

Ao refletir sobre as drogas, legais e ilegais, visíveis e invisíveis, percebi que o principal problema não é a substância em si, mas a própria capacidade de se viciar dos seres humanos. Naturalmente, certos produtos têm um potencial maior de gerar viciados [embora certas pessoas sejam bastante resistentes]. Por outro lado, mesmo coisas aparentemente inofensivas, como jogos em flash online, ou até percebidas como benéficas, caso dos exercícios físicos, podem se tornar vícios, provocando crises de abstinência e tomando boa parte do tempo, da energia, dos pensamentos e da vida das pessoas.

Além disso, observando as drogas legais e ilegais é possível perceber que a divisão não foi realizada tendo como base critérios científicos, mas econômicos e sociais. Heroína, ópio e cocaína já fizeram parte dos produtos disponíveis no mercado local, enquanto café, chocolate e álcool já foram proibidos por conta de seus efeitos lesivos à saúde física e mental dos usuários. Por mais estudos que tenhamos relatando os efeitos nocivos do cigarro ou, pelo contrário, mostrando a incapacidade de determinar uma relação significativa entre danos ao cérebro e o uso esporádico do LSD, é improvável que a Souza Cruz tenha que encerrar as portas ou que vejamos cartelas de ácido à venda nos bares.

Talvez por conta da minha constituição psíquica, jamais senti o desejo de usar drogas e nunca experimentei qualquer coisa ilegal, mesmo tendo inúmeras oportunidades. Já bebi goles mínimos de diversos fermentados, destilados, drinques e batidas, sempre rejeitando o forte gosto de álcool. Fui criado em um ambiente de não-fumantes e nunca aderi aos tabagistas. Portanto, eu não teria o menor ganho pessoal com a descriminalização das drogas e não sofreria qualquer revés se criminalizassem cerveja e fumo.

Por isso, só consigo enxergar a questão do ponto de vista prático do governo. Descriminalizar as drogas – todas elas – seria um segundo passo inteligente. Primeiro porque produtos legalizados geram impostos, empregos formais e oportunidades de carreira. Conseguir estágio na fábrica de cocaína vai ser tão legal quanto entrar para o trainee da AmBev. Além disso, com a ANVISA, o poder público poderia fiscalizar a qualidade dos produtos oferecidos ao consumidor. Nada de cal, grama ou amônia no meio do que fosse comprado.

Contudo, eu falei em segundo passo porque ele deve ser precedido pelo verdadeiro diferencial: uma extensa campanha de conscientização nas escolas e nos canais de comunicação sobre os efeitos, positivos e negativos, de cada uma das drogas, além de uma pesquisa acadêmica séria sobre o vício e seu papel na sociedade humana. As crianças têm o direito de saber que “o homem é escravo daquilo de que não pode prescindir” e que fumar maconha ajuda a relaxar, mas o uso constante deixa os reflexos lentos e prejudica a memória de curto prazo.

Alegar que a descriminalização das drogas sobrecarregaria nossos hospitais parece algo desprovido de fontes e falacioso. Nossos hospitais já estão sobrecarregados com os usuários e viciados – é só que a gente ignora as estatísticas. Na verdade, por conta do controle sanitário, do esclarecimento público dos efeitos e da concorrência legalizada, é até possível que tenhamos uma redução no impacto sobre o orçamento de hospitais.

Seria uma medida radical e exigiria um preparo além do que o governo federal e os governos estaduais brasileiros costumam apresentar, além de uma radical mudança de perspectiva, mas foi onde cheguei após pensar um tanto sobre o assunto. Sei que é possível discordar, mas minha esperança é um debate com outras pessoas que raciocinaram por conta própria e buscaram várias fontes, não papagaios repetindo o que o rádio, a tevê, a igreja, o pai e a professora os treinaram a matraquear.

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