Rota de Escape

por Hugo

Praticamente todos os adultos que conheci quando eu era criança e estava na escola me diziam que a infância era a melhor época da vida. Durante a adolescência, vários dos meus amigos que estavam nos 30 e poucos anos praticamente me imploraram para aproveitar o Ensino Médio, especialmente o 2º ano. Na universidade, alguns professores e os chefes no estágio falavam com nostalgia da época de faculdade deles – das festas, da rotina com os amigos, das férias de três meses.

As pressões autoimpostas e da sociedade só tendem a aumentar com o passar do tempo, a ponto de muitas pessoas de 40 anos ficarem em estado permanente de estresse e irritação, vivendo de forma miserável e irradiando toda a sensação negativa para a família, os amigos e os colegas de trabalho. Ainda assim, a retrospectiva acaba ocultando o fato de que juventude, adolescência e infância também tinham suas dificuldades, cobranças e angústias.

É uma tarefa complicada para um adulto imaginar que espécie de preocupações uma garotinha ou um menininho de cinco anos podem ter, mas basta lembrar que esses pequenos seres estão ainda aprendendo que tipo de ações agradam ou desagradam os pais, ainda não possuem noção de horas e compromissos e não atingiram a mentalidade de perspectiva para entender conceitos abstratos como “só no final de semana”. Na escola, precisam ao mesmo tempo corresponder às expectativas dos pais, atender às orientações das tias e transitar socialmente entre coleguinhas mais novos e mais velhos.

Logicamente, as crianças não analisam sua situação em palavras tão complexas, mas isso não quer dizer que elas não sintam toda essa pressão. As coisas apenas tendem a se agravarem quando avançamos alguns anos para o início da adolescência, quando o próprio corpo é fonte de confusão e as interações com os amigos, inimigos, rivais, ídolos, interesses românticos e sexuais são fontes quase infinitas de drama e ansiedade.

Na nossa sociedade brasileira moderna, a pressão para ter um desempenho satisfatório no ENEM e ser admitido em uma boa universidade, pública ou particular, participa dos anseios de uma geração que discute continuamente através das redes sociais temas banais como os episódios das séries mais populares e profundos como o papel da Polícia Militar e a identidade de gênero. Os atritos e demandas dos círculos sociais continuam existindo de forma similar à da adolescência, com a diferença de que agora se espera uma maior autonomia e responsabilidade emocional.

Tanta coisa ao mesmo tempo gerando pensamentos carregados podem provocar um verdadeiro curto-circuito no sistema mental de qualquer pessoa. Para isso, a maior parte adota para si uma ou mais rotas de escape. Nesse contexto, a diferença não vai estar tanto na legalidade ou não desse escape, mas na natureza das relações sociais que foram construídas até aquele momento e nas oportunidades que aparecerem.

Fugir do cotidiano não é novidade alguma. Elohim criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Os dias úteis são cinco [em teoria], enquanto sábado e domingo costumam ser reservados para o lazer e para as tarefas domésticas acumuladas. Os alunos têm direito a uma pausa de duas semanas no meio do ano [antigamente, um mês inteiro] e mais dois meses no Verão [antigamente, até três meses; alguns colégios mal concedem um mês e meio os dias de hoje]. Os trabalhados celetistas têm direito aos feriados oficiais e a 30 dias [úteis ou não] de férias [exceto naquelas empresas em que as férias são de mentira ou em que sempre são atrasadas/compradas].

As viagens são celebradas como ótimas escolhas para se escapar da rotina – pena que atualmente já não são uma lembrança pessoal de descanso, mas uma gincana de tirar fotos nos lugares em que todo mundo vai para mostrar que você também esteve lá. O álcool, através do happy hour e da ida ao bar no final do expediente da sexta-feira, é aceito como uma prática social normal. O cigarro, como mecanismo rápido de alívio de tensão, já não possui tanta aceitação e os fumódromos nas empresas são quase gaiolas de espécimes em extinção.

Os excessos são condenados em teoria e hipocritamente ignorados na prática – um porre no sábado é considerado aceitável desde que o funcionário se apresente para o trabalho na segunda às 8 horas. O uso de substâncias ilegais ou o uso ilegal de substâncias também costuma ser um assunto tabu e jamais levantado em conversas profissionais ou de pessoas com alguma classe. Hábitos considerados exóticos – como idas a clubes de swing ou grupos de meditação tibetana – são cochichados, mas nunca abordados diretamente.

Todas essas considerações demonstram que a sociedade compreende a necessidade de um alívio temporário das obrigações e responsabilidades, mas não sabe lidar com esse aparente “tempo perdido” para os indicadores maníacos de produtividade financeira. Não sabe tampouco como encarar as pessoas que escolhem vias diferentes das preconizadas e prefere tapar os olhos o máximo possível para não ter que questionar trabalhadores bem-sucedidos que cometem ilegalidades em seu tempo livre.

O único problema real que a via de escape apresenta é quando ela se torna muito mais atraente do que a rotina. O descanso sabático é para ser um período de renovação de forças e de mudança de perspectiva. Quando se torna um momento extremamente aguardado a ponto de roubar a atenção dos dias comuns, é óbvio que o cotidiano está pesando demais e as pressões estão começando a arruinar o equilíbrio psíquico da pessoa.

Em uma situação dessas, atacar uma via de escape recorrente seria como tratar somente da febre causada por uma infecção e não da enfermidade em si. Querer fugir da mentalidade diária e de suas situações associadas é um sinal muito claro de que há uma incompatibilidade entre coração e vivência. Infelizmente, o interesse por indivíduos sãos física e psiquicamente, de mente e espírito, é cada vez menor, desde que os números do dinheiro continuem subindo.

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