Drogas Legais Invisíveis

por Hugo

A discussão sobre as drogas já seria algo complexo e aberto a múltiplas interpretações sem necessidade da influência de grupos de poder para mudar o foco do debate e tentar impor uma visão que não tem como base o melhor para o país, para a sociedade ou para o cidadão. O discurso pronto que é vendido sobre drogados e viciados em maconha e cocaína, além de inconsistente, esconde propositadamente os males das drogas legalizadas, como o álcool, o cigarro e os remédios.

Após pensar sobre tudo o que chamamos de droga e considerar suas características em comum – o dano à saúde ao serem utilizadas em quantidades exageradas, a propensão para viciar cuja potência varia de acordo com a substância e o indivíduo, os efeitos prazerosos que diminuem com o tempo de uso -, notei que faltava mais um campo a ser explorado antes de discutir a grande pergunta: quais drogas devem ser descriminalizadas?

A porta de entrada para notarmos esse campo “oculto” do debate das drogas pode ser o contato com algumas raras culturas que banem não apenas as drogas ilegais, o cigarro e o álcool, mas uma outra bebida extremamente popular e cujos efeitos são encarados com normalidade: o café. A cafeína é proibida entre os mórmons por ser um estimulante ilícito da mente, gerando um estado alterado de consciência e privando a pessoa do controle normal da sua mente e de suas ações. O café, então, tem a distinta condição de droga ilegal para algumas pessoas e de droga legalizada invisível para outras.

Pensando em café, é fácil avançar para um segundo grupo de drogas legalizadas que raramente são vistas dessa maneira: os refrigerantes. Execrados por nutricionistas, dentistas e médicos por sua absoluta falta de valor nutritivo, as bebidas gasosas estão presentes em toda a civilização, Ocidental e Oriental. A principal marca mundial, Coca-Cola, é tão poderosa que arrancou os Jogos Olímpicos de 1996, ano do centenário das Olimpíadas modernas, de Atenas, berços dos Jogos na Antiguidade e sede da primeira edição, 1896, e os levou para Atlanta, nos EUA, sede geral da empresa.

O mercado é tão grande que os refrigerantes acompanharam a mudança dos tempos e popularizam suas versões “light” e “zero” para agradar os consumidores que queriam beber sem engordar [muito]. Tentando alcançar até mesmo os bebedores de suco e água, os produtos chamados ridiculamente de “água flavorizada”, como H2O, são refrigerantes com gosto leve e a promessa de não engordar [muito].

As propagandas voltadas para o consumidor infantil são inúmeras e francamente mal-intencionadas. Infames por seus componentes, os nuggets ou empanados de frango são vendidos como lanches gostosos. Boa parte dos biscoitos de “chocolate” são péssimos para a dieta das crianças e as informações nas embalagens são desleais – fácil pensar no exemplo do Trakinas, em que a tabela nutricional indica os valores para “dois biscoitos e meio” – que criança come apenas dois biscoitos e meio?

Para todas as idades e especialmente para as mulheres no período sensível da TPM, os chocolates têm enorme apelo, especialmente os brasileiros, recheados de açúcar e gordura. Para a maior parte de nós, acostumados a comer “um chocolatinho” com frequência, é difícil enxergar o doce como uma droga, mas qualquer um que tenha filhos sabe quão rápido é o efeito de um único Bis ou Kinder Ovo em uma criança de quatro anos. Em cerca de quinze minutos, eles se transformam em monstrinhos hiperativos, gritando, correndo e enlouquecendo qualquer responsável.

Eu posso literalmente apresentar dezenas de exemplos de comidas e bebidas cotidianas – leite condensado, açaí, guaraná, vitaminas, castanhas, nozes, balas, hambúrguer, fast food em geral, etc., etc. – que são drogas completamente legais e absolutamente invisíveis pelo simples motivo de que o enfoque está errado por princípio. Pensando em todos esses exemplos, parece exagero e, de fato, é um exagero chamar tudo isso de droga. Contudo, essas coisas todas viciam e fazem mal para a saúde na mesma linha que maconha, álcool e crack, com potências e ritmos diferentes, claro.

E agora, o caminho é proibir toda e qualquer substância que pode se tornar um vício? Mas e se abandonarmos a visão de “substância” como algo ingerido? Encontraremos várias outras drogas – jogos on-line, carteado, videogames, facebook, mensagens de texto, a própria internet, blogs, quadrinhos… um palestrante no TED, cirurgião, contou uma vez sobre seu vício em música clássica que chegou ao ponto de fazê-lo largar uma operação para correr e comprar o mais recente lançamento!

A saída para esse impasse pode ser encontrada olhando todo o problema de longe e percebendo que estamos gastando tempo e energia na luta contra um inimigo tão ilusório quanto “terrorismo” e “vândalos”.

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