A Menina que Brincava com Fogo

por Hugo

No primeiro livro da série Millennium, Stieg Larsson apresenta Mikael Blomkvist, um jornalista conhecido por sua revista independente “Millennium”, publicação com uma pequena equipe de jornalistas investigativos que abordam matérias ignoradas pelas grandes revistas e jornais. Aos poucos, no entanto, Larsson introduz a verdadeira protagonista, Lisbeth Salander, a “garota com a tatuagem de dragão” [e que é muito mais do que isso, a bem da verdade].

O segundo livro, “A Menina que Brincava com Fogo”, mantém o foco na garota de 26 anos com piercings, tatuagens, de aparência anoréxica, absolutamente antissocial e com um gênio absurdo, tanto de temperamento quanto de inteligência. No entanto, apesar da história revolver em torno do seu passado e de um acontecimento macabro no presente, seria uma imprudência dizer aquilo que escrevi no parágrafo anterior, que Lisbeth é a verdadeira protagonista da série Millennium. Não é e o erro está em olhar de perto demais o livro.

Sem dúvidas, Salander tem precedência sobre Blomkvist, que é um personagem interessante, mas “ingênuo”, nas palavras da própria. Ainda assim, a própria Lisbeth é apenas uma personagem, quando os livros falam, na realidade, sobre questões sociais que Larsson provavelmente testemunhava diariamente, matutava internamente e sentia vontade de expressar para além de sua revista independente “Expo”, que era um açoite sobre as organizações neonazistas e de extrema direita da Suécia.

A principal questão, sem a menor dúvida, é a hipocrisia da sociedade sueca, muitas vezes vista como ideal por estrangeiros e pelos próprios habitantes, em relação à violência contra a mulher, não apenas física, que certamente ocorre, mas psicológica e moral. O primeiro livro se concentra nos “homens que não amavam mulheres” e os representa de uma forma muito clara. Não é à toa que no Brasil existe a Lei Maria da Penha e as delegacias para mulheres, muito embora seu trabalho esteja muito aquém do objetivo inicial. O motivo é apresentado no segundo livro, A Menina que Brincava com Fogo.

A violência contra a mulher é tão forte na sociedade humana que os homens deram um jeito de embuti-la na própria forma de governar a si próprios. Durante o primeiro livro, o momento que me fez largar o livro por sentir um terrível enjoo e uma raiva bem no estômago foi o abuso de um homem visto como “cidadão de bem”, mas que não passava de um covarde, sádico e nojento. Já no segundo, a mesma sensação retornou quando um policial finalmente conclui que várias autoridades constituídas se organizaram para institucionalmente praticar uma violência contra mulheres.

É muito complicado para um homem entender como é ser uma mulher na nossa sociedade. Geralmente, a gente percebe apenas as vantagens [e elas existem, claro], como a maior facilidade para obter parceiros românticos ou sexuais e a capacidade de dar à luz e ter uma ligação inigualável com os filhos.

Contudo, a avalanche de pontos negativos é terrível e constantemente desprezada. Ser mulher significa estar sujeita diariamente a uma atitude desmoralizante e condescendente de homens de qualquer faixa etária e de qualquer classe econômico, desde o cara na rua que passa a mão na bunda de uma mulher que está passando e faz um comentário agressivo sexual até o chefe que trata a secretária como um enfeite estético com o bônus de ser capaz de marcar reuniões e repassar e-mails.

Apesar de ser o carro-chefe, digamos, das questões sociais que Larsson alinha em seus livros, o autor simplesmente ataca com uma sequência contínua de outras situações verdadeiramente inquietantes para qualquer livre pensador. Se no primeiro livro ele questiona a má qualidade dos jornalistas econômicos, que apenas repetem as informações dos corretores da bolsa sem análise crítica, no segundo Larsson amplia o alvo para a forma com que a mídia trata os escândalos policiais, transformando tudo em um espetáculo ridículo onde ganha quem trouxer informações irrelevantes, mas pitorescas.

Stieg Larsson aumenta o tom também das críticas sobre a forma com que o estado lida com os direitos humanos das pessoas consideradas incapazes na sociedade sueca. Embora os detalhes sejam válidos somente para as leis da Suécia, a ideia como um todo é fundamental para pensar sobre a política brasileira de tratamento de pacientes com distúrbios psíquicos e mentais. Aliás, no nosso caso brasileiro, ela é válida inclusive para pensarmos sobre nossa classificação legal dos índios, considerados incapazes para bom número de efeitos.

Existem muitos outros temas embutidos nesse segundo livro e que são detalhados com mais espaço no terceiro, como o funcionamento dos grandes jornais, a ética jornalística e o comportamento dos grandes jogadores da economia de um país, mas existe um último tema que não sei se foi propositalmente sugerido ou se foi uma interpretação minha: a dessensibilização da violência urbana.

A Polícia Militar do RJ é tão agressiva porque ela tem que lidar diariamente com situações e adversários equivalentes a uma verdadeira guerra civil. No entanto, ao governo brasileiro não interessa admitir esse estado calamitoso interno, apesar das estatísticas evidenciarem para quem quiser ver. Assim, enquanto é a polícia que enfrenta o crime organizado, a questão permanece sendo caso de polícia e não de exército e, portanto, não é guerra, apesar da polícia ser militarizada.

O lendário “Meia Hora”, com suas capas de humor às vezes questionável, quase sempre traz a informação de que a polícia mandou pra vala alguns bandidos em algum morro ou que um traficante conhecido por um apelido esdrúxulo terminou com cinco azeitonas na testa e vai dançar com o capiroto. Todo dia, meia dúzia de mortes violentas para somar na contagem total, mas como acontece cotidianamente, a coisa se torna rotina e a gente nem dá mais importância pra algo que deveria ser perturbador.

No livro, algumas situações extremamente violentas do tipo que dá pra encontrar em uma edição só do “Expresso” ou d'”O Povo” são descritas de tal forma que o impacto é pesado. No final das contas, o número total de mortos é pequeno, mas a antinaturalidade dessa forma de encerrar a vida é tão brutal que faz pensar como é absurdo lidarmos com qualquer latrocínio como algo que acontece.

A série Millennium realmente é fantástica porque é muito mais do que um romance policial com uma protagonista forte e divertida.

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