Drogas Ilegais

por Hugo

Ao me deparar com a questão do que, afinal, são drogas, resolvi começar a pensar por aquelas que são legalizadas, a ponto de algumas pessoas esquecerem sua condição de drogas – o álcool, o cigarro e os remédios. Isso me ajudou a entender que existem muitas drogas reconhecidas como tais e que são de livre acesso [teoricamente, desde que você seja maior de idade].

Ainda que ponderando o demérito em termos essa estranha separação entre drogas legais e ilegais quando as legalizadas causam danos profundos à saúde e à sociedade, isto não significa que todas as substâncias são igualmente ruins ou igualmente boas. Seria o mesmo que dizer que a cerveja tem o mesmo potencial de embriaguez que a tequila ou o uísque.

Como não sou estudioso da área biomédica e, portanto, não possuo conhecimentos aprofundados da classificação científica dos compostos químicos, vou me basear na visão comum e leiga dos grupos de drogas ilegais. A grosso modo, a primeira divisão está entre as drogas naturais e as drogas sintéticas. As naturais teriam como base ervas [maconha, haxixe] ou cogumelos [chá de trombeta], enquanto as sintéticas ou artificiais seriam produzidas em laboratórios de alta tecnologia [cocaína, metanfetamina] ou baixa [oxi, crack].

A cocaína é um bom exemplo da dificuldade desta separação – embora ela tenha como origem a folha da coca, passa por uma série de processos laboratoriais para se transformar no pó branco que se vende em saquinhos. Mesmo assim, não se espera que as “ervas naturais” usadas como drogas recreativas tenham vindo diretamente da floresta, sem alteração no caminho.

Essa classificação é largamente utilizada pelos usuários de maconha, sálvia, cogumelos alucinógenos e outras coisas “da natureza” sob a alegação de que “é natural, não faz sentido proibir” ou que “os índios usavam há milênios”. É uma argumentação fraca, baseada em um ideal de selvagem em equilíbrio perfeito com a natureza que não corresponde aos estudos históricos mais recentes. Mesmo levando em consideração uma comunidade indígena naturista e ecológica, as drogas geralmente eram reservadas para cerimônias e momentos específicos.

Um bom exemplo de uma droga legalizada apenas em contexto ritualístico é a ayahuasca amazônica, muito conhecida no Brasil através da Igreja do Santo Daime, da Barquinha e da União do Vegetal. Na verdade, uma combinação de ervas [e cipós, pedaços de casca de árvore, raiz, dependendo da versão], a ayahuasca causa grandes alucinações, mas só era usada em rituais. A ANVISA permite seu uso nesse contexto, mas é possível encontrar pessoas fazendo uso da substância em redutos de drogas ilícitas.

As ervas naturais também costumam ser defendidas sob o pretexto dos efeitos medicinais que possuem. Apesar da verdade de serem boas soluções para certos males físicos e psíquicos, a grande maioria dos usuários não faz uso como remédio para uma dor específica, mas para se divertir. A maconha, aliás, grande exemplo deste caso, também era uma droga ritualística, sendo a erva sagrada de Shiva, na Índia.

Apesar de tudo, as drogas naturais costumam ser menos danosas, física e socialmente, e gerar menor propensão ao vício. Por outro lado, as drogas chamadas de sintéticas geralmente são estimulantes potentes que prejudicam o sistema nervoso e o cérebro do usuário. O método de utilização – cheirar, injetar, colocar na boca e até usar como supositório – também tem seus prejuízos específicos. Algumas pessoas destroem as veias do braço de tanto injetar heroína a ponto de precisar recorrer à aplicação na virilha, por exemplo.

Mais caras, as drogas artificiais possuem maior poder de vício e geralmente circulam entre pessoas com mais dinheiro. Uma das exceções é o crack, que é a versão bem mais potente, perigosa e prejudicial da cocaína. Os usuários rapidamente se deterioram, perdendo completamente o controle da vida e se transformando em zumbis – os “crackudos” fáceis de serem avistados na linha do trem, no Centro do Rio ou perto da Avenida Brasil.

As combinações de compostos químicos são quase infinitas e, por isso, existem muito mais drogas artificiais sem nomes ou de alcance apenas local do que drogas naturais. Os efeitos a longo prazo do uso dessas variações são largamente desconhecidos e dificultam uma análise objetiva até mesmo de quaisquer benefícios que possam causar.

É preciso reservar um nicho especial para o LSD, o ácido lisérgico homenageado pelos Beatles em “Lucy in the Sky with Diamonds”. Apesar de ser uma droga do grupo das artificiais ou sintéticas, o LSD não causa vício químico [o que não isenta o risco de vício psicológico], não causa danos físicos aparentes e é extremamente improvável de provocar overdose. Contudo, o ácido pode ampliar os sintomas de esquizofrenia em quem já tem propensão à doença.

Existem várias outras separações das drogas ilegais – entre estimulantes e depressivas, por exemplo, ou entre as que provocam alucinações e as que não provocam. Algumas drogas são chamadas de enteógenas por, teoricamente, proporcionarem um encontro com a divindade interior. Quando um assunto é tabu, as pesquisas isentas se tornam mais raras porque a sociedade se recusa a pensar sobre o assunto.

Mesmo este artigo é limitado. Existem diversos outros aspectos sobre cada uma das drogas que eu citei, sem contar os estudos comparativos. Além do mais, como jamais tive interesse em experimentá-las, não posso fornecer relatos pessoais, apenas minhas impressões ao observar usuários e ouvir histórias de fontes confiáveis.

Apesar de tudo, fica fácil perceber que as drogas ilegais não são todas iguais e que, na realidade, não só cada uma tem suas propriedades específicas, mas também seus efeitos variam de caso em caso. Da mesma forma que algumas pessoas nascem com propensão ao vício do álcool e outras são capazes de beber todos os dias da faculdade e passar o resto da vida sóbrias sem dificuldades, as drogas ilegais são apenas uma fase para alguns e o vício final para outros.

Por enquanto, caminhei pelo lado fácil: identificar as drogas que são chamadas de drogas. E quanto às drogas invisíveis?

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