Drogas Legais Visíveis

por Hugo

Ao ter minha visão sobre drogas desafiada e arruinada, fui forçado a refletir: “o que são drogas, afinal?”. Uma pergunta complicada com uma resposta não menos desafiadora. Pensei em tudo o que era chamado de droga: maconha, cocaína, crack, heroína, ecstasy, anfetamina, etc. Todas substâncias que produzem efeitos prazerosos, mas que causam danos ao corpo. Mais do que isso, elas alteram a química cerebral, gerando vício e exigindo doses cada vez maiores e cada vez mais frequentes para se tentar emular a sensação original [naturalmente, em ritmos diferentes – o crack vicia com mais potência e mais rápido que a maconha].

Só de pensar sobre essas características dá pra perceber o motivo pelo qual cigarro e álcool também são chamados de drogas, embora legais. Os dois são viciantes, os dois proporcionam prazer em troca de danos corporais e os dois começam devagar e logo se tornam um hábito constante e maquinal. O cigarro tem a desonra de ser especialmente nocivo porque sua fumaça afeta as pessoas ao redor, os chamados “fumantes passivos” ou “secundários”.

Por que cigarro e álcool são especiais entre as drogas, legalizados e impunes, enquanto todo o resto do conjunto entra no rótulo “ilegal”? Os empresários da indústria da nicotina e do álcool certamente fizeram muito esforço junto aos governantes e aos congressistas para impedir que seus produtos fossem banidos junto com os demais, mesmo sabendo que o álcool é responsável por mais da metade das mortes causadas pelas substâncias tóxicas consumidas nos dias de hoje e que o cigarro está por trás de 80% dos cânceres de pulmão e aumenta em quase dez vezes as chances de derrame cerebral.

Poderia ser argumentar que beber um ou dois copos de cerveja na praia ou fumar um cachimbo a cada duas noites não faz mal e até tem algum benefício. Verdade. Só que o mesmo vale pra maconha, com seus efeitos medicinais, e até o velho Papa Leão XIII tomava vinho com cocaína para ajudar na saúde, o Vin Mariani! Desta forma, não é possível atribuir a liberação dos dois à sua ação salutar em pequenas quantidades.

Fica evidente que se trata de uma luta feroz de interesses quando se percebe que parte do governo quer diminuir a influência das empresas dos dois setores e outra parte está a serviço delas. Apenas no ano passado a ANVISA conseguiu proibir a venda de cigarros com sabor, dos quais o mais conhecido é o mentolado. Essa linha tem como objetivo atrair os consumidores jovens, muitos menores de 18 anos, com cigarros “sem gosto de cigarro”. A medida entrou em vigor em agosto de 2012, mas não valeu para as principais fabricantes, Souza Cruz e Philip Morris, que conseguiram uma liminar para manter seu mercado.

Ainda mais complicada é a situação dos remédios. Hoje em dia, as farmácias cada vez mais se parecem com mini-supermercados, vendendo produtos alimentícios e cosméticos em geral. Além disso, é cada vez mais raro encontrar uma com o antigo nome: drogaria. Os remédios nada mais são do que drogas permitidas e reguladas para tratamentos de saúde. Existe toda uma discussão sobre a perversidade da indústria farmacêutica, que utiliza métodos baixos para fazer com que os médicos recomendem seus remédios, mas é muito extensa e não é a pauta de hoje.

Muitos adultos são viciados em remédios “tarja preta”, aquelas cuja venda não apenas é controlada, mas também deveria ser reservada apenas para casos graves. O estereótipo da socialite viciada em tranquilizantes para dormir é parte do passado – antidepressivos e calmantes são vendidos aos milhões em muitas drogarias que ignoram a necessidade de receita ou que têm acordo com médicos que desonram a profissão. A Ritalina, utilizada para aumentar a concentração e deixar as crianças mais domáveis, muitas vezes é ministrada desde antes da adolescência.

Mesmo os remédios que não possuem tarja vermelha ou preta, como aqueles contra a dor de cabeça, apresentam graves riscos de vício. Muitas pessoas não apenas andam com uma farmácia na mochila ou na bolsa, mas também tomam o “remedinho” todos os dias, às vezes de manhã e de noite. Heck, até mesmo o descongestionante nasal, como o Sorine e o Neosoro, podem se tornar um fardo e causar abstinência!

Droga por droga, não adianta chamar de viciado só quem fuma maconha… mas além do poder econômico da indústria do cigarro, do álcool e dos remédios, deve haver mais motivos para que as drogas ilegais sejam contra a lei, certo?

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