Descriminalização do Aborto

por Hugo

Eu acredito que existe um motivo para que uma pessoa nasça em determinada época, em determinado lugar, com determinados pais, irmãos, primos, tios, avós, etc. Esse motivo – ou, provavelmente, múltiplos motivos – está muito além da compreensão humana e eu não tenho a menor pretensão de entender do que se trata ou de tentar analisar a minha vida e dizer por qual razão minha mãe é minha mãe.

Além disso, por acreditar na divindade universal criadora do Multiverso e da fagulha dentro de cada um de nós, acho que cada vida é um potencial sagrado de valor imensurável. Acredito ainda que, por más escolhas e pura tolice, muitos corrompem a tal ponto sua natureza divina que precisam caminhar por bastante tempo até se redimirem e retificarem seu interior.

Por conta disso e de outras coisas, eu sou contra o aborto. Acho que a concepção da vida é o maior ato que um ser humano realiza e abortar o processo é algo de profundo impacto, com consequências por séculos difíceis de serem imaginadas. Soa catastrófico e alarmista, mas acho que é literalmente “mexer com algo que você não conhece e não entende”.

Criado como católico, passei pelo Batismo, pela Primeira Comunhão e pela Crisma. Teria continuado eternamente na Igreja se minhas crenças não tivessem se distanciado o suficiente da doutrina a ponto de eu ter que admitir que o Papa já não me reconheceria como um dos dele. Talvez essa minha negação ao aborto tenha raízes nisso.

Apesar disso, as leis de um país não devem ser pautadas pelas convicções do indivíduo. Mais do que isso, não devem sequer seguir crenças ou ideologias. O governo precisa fazer o melhor pelos seus cidadãos de modo que eles possam viver da maneira que desejarem sem se destruírem mutuamente.

Pessoalmente, eu sou contra o aborto. Se fosse governante, no entanto, veria que se trata de uma questão de saúde pública. Abortos clandestinos resultam em mutilações e mortes desnecessárias. Existem clínicas de aborto que podem ser recomendadas por certos ginecologistas em quase todas as cidades de médio e grande porte. Nas cidades pequenas, o que funciona são os métodos caseiros – a agulha de tricô, o chá amargo, golpes na barriga…

A discussão sobre quem decide abortar é complexa. Eu não aceito completamente o argumento de que a mulher é dona do próprio corpo e é a única que deve decidir sobre o assunto, pois isso deixa o pai que deseja ter o filho de mãos atadas, sem poder defender sua vontade de manter a gravidez. Ainda assim, é melhor que o aborto seja descriminalizado em qualquer circunstância e que existam médicos preparados para auxiliar a paciente do que deixá-las nas mãos de pessoas sem treino e, algumas vezes, de má fé.

O aborto é uma medida derradeira. Em termos de políticas públicas de saúde, a conscientização sobre métodos anticoncepcionais – camisinha, pílula anticoncepcional, DIU -, sobre comportamento sexual [sem moralismo, apenas explicitando a importância de cuidar da saúde] e sobre planejamento familiar é a atitude com maior abrangência e de melhor efeito.

Não há verdadeira escolha se não se conhecem as opções disponíveis. A mulher deve ter plena consciência do que deve fazer para engravidar e para não engravidar e quais serão as prováveis consequências. Se a educação geral de todos os cidadãos incluísse esse conhecimento essencial, teríamos famílias melhor estruturadas e, sim, menos abortos que, legalizados, seriam acompanhados com competência e cuja incidência de mortes se reduziria. Uma perspectiva mais acalentadora do que a situação atual, onde o aborto é tabu na nossa sociedade e garotas morrem por hipocrisia.

Anúncios