Drogas

por Hugo

Nunca senti a menor atração por drogas e nem mesmo curiosidade para experimentar e sentir os efeitos. A ideia de ficar chapado ou de ficar louco por um tempo jamais pareceu tão divertida assim. Conheci uma pessoa que dizia ter não nascido geneticamente programada para acreditar em Deus. Acho que nasci programado para não ter interesse em me tornar usuário de drogas.

Por muitos anos, mantive larga distância de qualquer substância ilegal. Meus conhecimentos sobre o assunto eram consideravelmente superficiais e eu tinha verdadeira ojeriza tanto pela coisa em si quanto por quem usava. Acho que foi dessa época que nasceu minha impressão de que a enorme maioria das drogas não possui grande diferença entre si. Todas eram terríveis agentes de corrupção mental e psíquica e os usuários e viciados eram pessoas com pouca força de vontade, verdadeiros fracos e fracassados.

Quando me tornei adulto, conheci alguns usuários de maconha, quase todos fazendo bem o estereótipo de hippie ou de seguidores de Jah, com suas bandeiras do Império Etíope. Alguns deles, no entanto, passariam facilmente por “pessoais normais” e faziam faculdades ou trabalhavam em profissões que nunca são associadas a essa erva – Engenharia, Direito, Medicina, Administração, Ciências Contábeis…

Meu contato com os efeitos do “cigarrinho do capeta” não foi lá muito positivo. As pessoas ficavam lentas e as conversas perdiam o sentido rapidamente. Alguns que “davam um dois” ficavam paranoicos e entravam numa “bad” completamente sem motivo. Por fim, o pessoal que “fumava unzinho” cinco ou seis vezes por dia geralmente continuavam com o raciocínio lento e o esquecimento pelo resto do dia. Tudo isso só me irritava e minha opinião sobre as drogas só piorou.

Apesar dessa situação, uma noção curiosa começava a se desenvolver na minha mente, de forma muito embrionária, sem que eu pudesse expressar ou mesmo perceber que essa ideia estava lá. Descobri que alguns amigos meus, de vários ambientes diferentes, usavam drogas de forma recreativa. Não apenas maconha, mas “dropavam” LSD [ácido ou “doce”], tomavam ecstasy [“bala”], fumavam haxixe e mais outras coisas que eu nem sequer sabia que existiam no Brasil.

Era perturbador. Eu detestava as drogas e entendia os viciados como falhas. Sabia que o consenso médico dizia se tratar de uma doença, mas eu não conseguia deixar de sentir menosprezo por quem escolhia essa rota. Tudo piorava quando entravam em jogo os eufemismos que pareciam ter se tornado regra em todo o vocabulário. Não bastasse empregado ter se tornado “colaborador” e taxa/imposto ter virado “contribuição”, viciado passava a ser chamado de “adicto” e até mesmo os maconheiros passavam a se identificar como “canabistas”, exaltando uma teórica “cultura da cannabis”.

Por outro lado, eu convivia com aquelas pessoas, várias delas diariamente. Alguns eram meus amigos e a grande maioria eu não hesitaria em defender como “boa pessoa” em qualquer discussão sobre reputação. Quer dizer, exceto pelo fato de que usavam as malditas drogas. Como aquelas pessoas podiam parecer boa gente e, ainda assim, serem tão ruins a ponto de recorrerem às drogas? Elas não tinham mudado, no final das contas, a minha percepção delas é que tinha se alterado quando descobri que elas eram contraventoras, elementos contrários à moral e aos bons costumes…

Minha mente lógica só aceitava uma solução: minhas premissas estavam equivocadas. Pensei nas drogas. Eu continuava desgostando delas tão intensamente quanto antes, mas agora eu adquirira uma escala de pequena variação nesse desgosto. As sintéticas eram as piores; aquelas baseadas em ervas vinham em seguida – eu aceitava o argumento de que índios e outros povos as usavam ritualisticamente, mas rejeitava a validade de usá-las de forma recreativa; por fim, em um patamar isolado, estava o LSD, uma droga esquisita que eu não conseguia condenar completamente.

Pensei, então, nas pessoas, nos usuários, nos viciados, nos “adictos”. Eu estava enganado e meu erro fora reforçado continuamente pela propaganda em massa dos péssimos veículos de comunicação que temos no mundo. Os usuários de droga eram, por definição, pessoas, com as mesmas faltas e virtudes que qualquer outro ser humano. Era ridículo demonizá-los por conta de uma só característica, fosse um hábito, uma escolha ou uma doença.

Mas isso era apenas um aspecto de uma discussão enorme e de profundas implicações. Até então, eu enxergara como drogas um conjunto nefasto de substâncias ilegais distribuído por bandidos em uma rede subterrânea de mal-feitores. Eu ainda acrescentava a esse grupo cigarro e álcool, que causam grande prejuízo à saúde de bilhões de pessoas ao redor do planeta e que eram legalizados. Eu havia me ludibriado e permitido que minhas ideias fossem conduzidas pela propaganda de quem tinha interesses próprios. Precisava pensar com a minha cabeça e foi isso que eu comecei a fazer.

O que são drogas, afinal?

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