Em Busca de…

Verdade, Luz, Liberdade, Amor e Paz

Mês: outubro, 2013

Meditação – Semana 5

Quando entrei em contato com a ideia de meditação, há alguns anos, percebi que existiam, mais ou menos, três tipos diferentes: as práticas que pediam uma sequência de imaginação e visualização de energias ou mesmo cenários mentais; as que pediam o foco em uma coisa, seja um sentimento, um lema, uma ideia geral, um movimento ou um objeto; e as que pediam o esvaziamento da mente.

Das três espécies, o tipo mais difícil era o último. Pacificar a mente a ponto de esvaziá-la é uma tarefa extremamente complicada para quem está habituado à interação permanente com informações de diversas fontes simultâneas – conversas, música, celular, computador, televisão, um artigo em um jornal ou em um blog, etc.

Somente quando você começa a praticar diariamente a observação dos pensamentos, consegue perceber que aquela visualização que você achava bem melhor e mais fácil, na verdade, era bastante falha: o tempo todo a sua mente se distraía e vazava energia para assuntos não-relacionados, enfraquecendo a potência do exercício.

Agora, depois de mais de um mês de meditação diária, é possível perceber os primeiros efeitos práticos por todo o dia. Eu sinto mais facilidade em me concentrar nas tarefas do dia, mais força de vontade para executá-las e menos apego ao resultado das ações. Não, não sou Buddha algum, mas agora existem momentos do dia em que eu consigo simplesmente respirar e me sentir tranquilo.

Dias de meditação: 7
Dias sem meditação: 0
Tempo médio de meditação [total]: 4 minutos e 17 segundos

Novo Projeto – NaNoWriMo

Existem diversos caminhos para o autoaprimoramento. A transformação de velhos hábitos ruins em novos bons costumes é uma das principais. Pensar, planejar e se aventurar em projetos pessoais é uma alternativa interessante. Até agora, tenho relatado dois projetos de longa duração – o de preparo físico seguindo o treinamento do Convict Conditioning, com duas postagens semanais, e o relato semanal das minhas considerações sobre a prática diária da Meditação.

Contudo, eu queria alguma coisa que demonstrasse o poder dos projetos pessoais de duração mais limitada. Por sorte, estamos no final de outubro e mês que vem teremos o NaNoWriMo – o National Novel Writing Month, ou o Mês Nacional de Escrever Romance. Fui apresentado a esse site há cinco anos por um grande amigo do colégio que me incentivou a colocar em prática minha fantasia de escrever um livro.

Naquele primeiro ano, 2008, consegui atingir no último dia a meta de 50.000 palavras e escrevi “O Livro de Salatiel”, que acabei mostrando para pouquíssimas pessoas, mas de que tenho grande orgulho. No ano seguinte, 2009, participei, mas acabei parando na metade porque o ritmo da faculdade acabou estrangulando a trama do meu romance que, para ser honesto, já estava meio titubeante.

Depois de um hiato de três anos, vou aproveitar essa oportunidade e participar novamente do NaNoWriMo. Dessa vez, porém, serei um dos que participam roubando – não vou escrever um romance, mas uma série de artigos sobre as coisas que tenho estudado nos últimos seis anos para poder organizar meus pensamentos. Vou manter a meta de 50.000 palavras, o que deve me levar a escrever sobre 50 temas diferentes.

Espero que seja uma jornada interessante. Pretendo apresentar um resumo semanal para compartilhar as dificuldades do processo de escrever com um prazo curto e uma grande meta. Para complicar, ainda tenho a intenção de manter a regularidade de postagens aqui. Um bom desafio, como todo projeto pessoal deve ser!

Descriminalização das Drogas

A discussão sobre as drogas são complicadas pelo enorme tabu que nós, brasileiros, temos em relação a esse tema. Embora não tenhamos a pior mentalidade possível – a maior parte de nós não acredita realmente em uma “guerra contra as drogas”, como se essas substâncias fossem soldados inimigos prontos para invadir nossa pátria amada -, ainda escolhemos ignorar a discussão e confiar no que jornais, revistas ou acadêmicos têm a dizer sobre o tema, terceirizando o serviço de pensar, entender e escolher um caminho.

Ao refletir sobre as drogas, legais e ilegais, visíveis e invisíveis, percebi que o principal problema não é a substância em si, mas a própria capacidade de se viciar dos seres humanos. Naturalmente, certos produtos têm um potencial maior de gerar viciados [embora certas pessoas sejam bastante resistentes]. Por outro lado, mesmo coisas aparentemente inofensivas, como jogos em flash online, ou até percebidas como benéficas, caso dos exercícios físicos, podem se tornar vícios, provocando crises de abstinência e tomando boa parte do tempo, da energia, dos pensamentos e da vida das pessoas.

Além disso, observando as drogas legais e ilegais é possível perceber que a divisão não foi realizada tendo como base critérios científicos, mas econômicos e sociais. Heroína, ópio e cocaína já fizeram parte dos produtos disponíveis no mercado local, enquanto café, chocolate e álcool já foram proibidos por conta de seus efeitos lesivos à saúde física e mental dos usuários. Por mais estudos que tenhamos relatando os efeitos nocivos do cigarro ou, pelo contrário, mostrando a incapacidade de determinar uma relação significativa entre danos ao cérebro e o uso esporádico do LSD, é improvável que a Souza Cruz tenha que encerrar as portas ou que vejamos cartelas de ácido à venda nos bares.

Talvez por conta da minha constituição psíquica, jamais senti o desejo de usar drogas e nunca experimentei qualquer coisa ilegal, mesmo tendo inúmeras oportunidades. Já bebi goles mínimos de diversos fermentados, destilados, drinques e batidas, sempre rejeitando o forte gosto de álcool. Fui criado em um ambiente de não-fumantes e nunca aderi aos tabagistas. Portanto, eu não teria o menor ganho pessoal com a descriminalização das drogas e não sofreria qualquer revés se criminalizassem cerveja e fumo.

Por isso, só consigo enxergar a questão do ponto de vista prático do governo. Descriminalizar as drogas – todas elas – seria um segundo passo inteligente. Primeiro porque produtos legalizados geram impostos, empregos formais e oportunidades de carreira. Conseguir estágio na fábrica de cocaína vai ser tão legal quanto entrar para o trainee da AmBev. Além disso, com a ANVISA, o poder público poderia fiscalizar a qualidade dos produtos oferecidos ao consumidor. Nada de cal, grama ou amônia no meio do que fosse comprado.

Contudo, eu falei em segundo passo porque ele deve ser precedido pelo verdadeiro diferencial: uma extensa campanha de conscientização nas escolas e nos canais de comunicação sobre os efeitos, positivos e negativos, de cada uma das drogas, além de uma pesquisa acadêmica séria sobre o vício e seu papel na sociedade humana. As crianças têm o direito de saber que “o homem é escravo daquilo de que não pode prescindir” e que fumar maconha ajuda a relaxar, mas o uso constante deixa os reflexos lentos e prejudica a memória de curto prazo.

Alegar que a descriminalização das drogas sobrecarregaria nossos hospitais parece algo desprovido de fontes e falacioso. Nossos hospitais já estão sobrecarregados com os usuários e viciados – é só que a gente ignora as estatísticas. Na verdade, por conta do controle sanitário, do esclarecimento público dos efeitos e da concorrência legalizada, é até possível que tenhamos uma redução no impacto sobre o orçamento de hospitais.

Seria uma medida radical e exigiria um preparo além do que o governo federal e os governos estaduais brasileiros costumam apresentar, além de uma radical mudança de perspectiva, mas foi onde cheguei após pensar um tanto sobre o assunto. Sei que é possível discordar, mas minha esperança é um debate com outras pessoas que raciocinaram por conta própria e buscaram várias fontes, não papagaios repetindo o que o rádio, a tevê, a igreja, o pai e a professora os treinaram a matraquear.

Convict Conditioning – Dia 92

Assim começa a 14ª semana do longo projeto do Convict Conditioning, o treinamento de calistenia proposto por Paul Wade no livro de mesmo nome. Segunda-feira é dia de flexões de braço e de elevações de perna.

Pushup
Step 02: Incline Pushup
3 sets of 40
Primeiro set com ligeiro cansaço nos braços; segundo set com mais dificuldade, cansaço nas panturrilhas; ao término do terceiro set, músculos cansados, mas sem risco de exaustão.

Pode parecer pouca coisa para quem tem a genética a seu favor e possui potência nos músculos do braço, mas conseguir atingir o patamar de progressão no segundo passo da sequência de flexões de braço é uma enorme vitória para mim. Na primeira vez que tentei praticar o Convict Conditioning conforme recomendado no livro, passei três semanas tentando sair das 2 séries de 20 repetições sem o menor sucesso.

Agora, não só tripliquei o número total de repetições, mas confirmei o domínio sobre essa etapa! Apesar disso, vou manter meu costume e, semana que vem, repetirei o mesmo desempenho de 3 séries de 40 repetições para garantir que não foi um acaso e que estou pronto para o próximo nível, a flexão de joelhos [Kneeling Pushup].

Leg Raise
Step 02: Flat Knee Raise
2 sets of 30; 1 set of 25
Um pouco de trabalho no final do primeiro set; segundo set com bastante cansaço na parte inferior do abdômen e nos quadris; terceiro set executado com respiração ofegante.

Estou avançando mais rapidamente no segundo passo das elevações de perna do que no primeiro, o recolhimento de joelho [Knee Tuck]. Apesar disso, a elevação da perna a 90º é enganadora – parece fácil e durante as primeiras 15 ou 30 repetições, o esforço parece ser pequeno, mas logo os músculos do abdômen começam a cansar e fica difícil manter o movimento na forma prescrita, sem acelerar o passo ou encostar os pés no chão.

Nas primeiras semanas, tive dificuldade para parar os pés antes que eles tocassem o solo; ficava com a cabeça levantada, olhando pelo reflexo da TV desligada para me certificar de que estava chegando o mais próximo possível, sem encostar no chão. O corpo eventualmente se acostuma e agora já não preciso desse artifício, que causava certa tensão na base do pescoço.

Convict Conditioning – Dia 89

Na rotina iniciante do treino de calistenia Convict Conditioning, descrito por Paul Wade em seu livro do final de 2009, as sextas-feiras são reservadas para as sequências de agachamento e de flexão de barra.

Squat
Step 03: Supported Squat
2 sets of 15; 1 set of 10
Primeiro set executado sem problemas; um pouco ofegante e com pernas mais cansadas no final do segundo set; pernas ligeiramente trêmulas no término do terceiro set.

Executar os agachamentos foi, na realidade, muito simples. Considerei avançar mais repetições, mas achei por bem me ater ao programado. Pode me custar umas duas ou três semanas agora, mas a verdade é que essa sequência é provavelmente a que menos me preocupa. Minhas pernas não são particularmente fortes, mas estão em melhor estado que os demais conjuntos musculares.

Estou tomando cuidado também para executar as repetições o mais próximo possível do prescrito – 2 segundos para agachar, 1 segundo na posição final, 2 segundos para levantar, outro segundo na posição inicial. Além disso, essa atenção me ajuda a manter os joelhos na posição correta, sem incliná-los para dentro na hora de agachar.

Pullup
Step 02: Horizontal Pull
1 set of 8; 1 set of 5
Enorme dificuldade para realizar o primeiro set, abaixo do patamar de iniciante; exercícios do segundo set feito com melhor desenvoltura, mas ainda em pouca quantidade.

Comprei uma Polibarra para poder fazer o segundo passo da sequência de flexão de barra. Eu já sabia que essas barras de exercício de pressão são questionáveis, mas esperava um pouco mais de qualidade. Já começo pelo seguinte aviso para quem tem batentes brancos na porta: eles serão manchados de borracha preta logo que você começar a instalar a barra.

Demorei cerca de 15 minutos para instalar satisfatoriamente a barra – em parte, porque eu devo ser mal capacitado para isso. Duas vezes eu apertei o máximo que pude apenas para a barra subitamente ceder sob o meu peso e deslizar 10 ou 15 centímetros [com duas belas manchas pretas nos batentes para acompanhar].

Assim, quando fiz a primeira série, estava com um certo medo da barra soltar e eu bater de costas no chão. Certamente, isso prejudicou o desempenho, mas eu já esperava uma grande dificuldade. De acordo com um artigo bem longo e interessante que li sobre o enorme salto entre o passo um e o passo dois da sequência de flexão de barra do Convict Conditioning, o aumento na carga sobre os braços varia entre 18 e 30 vezes!

Curiosamente, meu desempenho foi idêntico ao da minha primeira tentativa com o CC, em 2012. Uma série de 8 repetições seguida por uma série de 5 repetições. Isso, na realidade, me anima porque, lá no passado, cheguei a atingir uma série de 15 repetições e outra de 10. Se na próxima semana eu não conseguir atingir o patamar iniciante, vou procurar o “passo 1/2”, a Jackknife Pull, puxada canivete, proposta no blog da Dragon Door, editora dos livros da série de Paul Wade.

Meditação – Semana 4

Meditar durante as épocas de maior trabalho é um grande desafio. As diversas práticas e escolas existentes exigem horas de concentração por dia e é praticamente impossível conciliar todo esse “não-produtivo” com a atividade frenética do trabalho, da faculdade, da escola, da família, dos compromissos sociais, do mundo.

Em outras épocas, eu simplesmente deixava a prática meditativa de lado. No entanto, isso é muito ruim porque acaba com o hábito e a mente logo retorna ao estado selvagem de pensamentos descontrolados, um redemoinho de emoções, memórias, fantasias e ideias sem propósito e exaustivo.

Portanto, preferi reduzir [bastante] os minutos praticados, mas manter o hábito diário. Por isso, elegi uma única prática – a observação do pensamento – e utilizei o tempo que consegui a cada dia, variando dos 2 minutos mínimos [4 dias] até 15 minutos. Mesmo esse tempo reduzido serve como excelente ferramenta para evitar os pensamentos obsessivos com os compromissos de trabalho e com o estresse da rotina de pressões.

Dias de meditação: 7
Dias sem meditação: 0
Tempo médio de meditação [total]: 8 minutos e 17 segundos

Convict Conditioning – Dia 85

Segunda-feira da décima terceira semana de Convict Conditioning, o treinamento de calistenia proposto por Paul Wade, começa com o desafio das flexões inclinadas!

Pushup
Step 02: Incline Pushup
1 set of 40; 2 sets of 35.
Bastante trabalho nos braços durante o primeiro set, curiosamente também nas panturrilhas; cansaço significativo no segundo set, um pouco sem ar; fim do terceiro set próximo do limite.

Logo ao término da primeira série de repetições, senti medo de não conseguir realizar as séries seguintes porque os braços já estavam cansando. Para piorar, por conta da posição, até mesmo os músculos das pernas indicavam esforço. A dificuldade foi grande de realizar a segunda série resistindo à tentação de acelerar o movimento e diminuir o tempo de carga.

Completar a terceira série de 35 repetições foi questão de pura força de vontade e cheguei próximo do limiar de exaustão. É bem possível que na próxima semana eu não seja capaz de realizar as 3 séries de 40 repetições. Ainda assim, estou muito mais avançado do que na minha melhor tentativa anterior, quando estacionei em 2 séries de 20 repetições e não consegui ampliar o número de exercícios de forma alguma.

Senti dores e incômodos nos dois antebraços e nos músculos do peito até cerca de 60 horas depois do exercício, na manhã de segunda. Não era nada impeditivo, mas acho que é mais um sinal de que realmente estive próximo do limite recomendável para o corpo.

Leg Raise
Step 02: Flat Knee Raise
3 sets of 25.
Um pouco de trabalho no final do primeiro set, incômodo no pescoço; segundo set com mais esforço; cansaço no abdômen como um todo ao fim do exercício.

As elevações de perna seguem em um ritmo curiosamente mais rápido do que a do primeiro passo da sequência. Ainda assim, elas parecem ser mais fáceis do que realmente são, provocando um trabalho concentrado nos músculos do abdômen. Apesar disso, não senti dores ou incômodos notáveis nos dias seguintes ao exercício.

Como uma observação lateral, mas agradável, lentamente a musculatura da barriga está começando a se definir. A região ao redor do umbigo continua da mesma maneira, mas os músculos superiores do abdômen aparecem levemente sem necessidade de poses que os contraiam e destaquem.

Convict Conditioning – Dia 82

Sexta-feira da 12ª semana, primeiro dia com os novos agachamentos apoiados [Supported Squats], terceiro passo na sequência.

Squat
Step 03: Supported Squat
2 sets of 15
Muito mais cansaço do que o esperado ao final do primeiro set; ofegante e com sensação clara de trabalho nas pernas no fim do segundo set.

Utilizei a bancada da pia – a mesma que uso para as flexões inclinadas – como apoio. Para minha surpresa, fiquei cansado rapidamente. Terminei a segunda série de 15 repetições ofegante. Não esperava uma mudança tão grande assim de dificuldade, para ser sincero. Ainda assim, saltei diretamente para o patamar intermediário do passo, 2 séries de 15 repetições.

Não senti dores nem grande incômodo no dia seguinte, o que me faz pensar que posso arriscar uma progressão mais ousada para a próxima semana, quem sabe até 3 séries de 15 repetições? Esta é a primeira vez que cheguei neste passo, então ainda estou experimentando para conhecê-lo.

Pullup
Step 01: Vertical Pull
3 sets of 40
Metade das repetições somente com o braço esquerdo, a outra metade somente com o braço direito; aumento de dificuldade, mas nada significativo; pequeno incômodo no dia seguinte.

Quarta semana seguida com o patamar de progressão das Puxadas Verticais e me considero graduado para o passo seguinte, a Puxada Horizontal [Horizontal Pull]. Ainda preciso comprar uma barra para fazer os exercícios; estou pensando em comprar uma daquelas de porta, mas fico na dúvida de qual escolher e se vale mesmo a pena.

De qualquer modo, fazer a puxada vertical usando somente um braço realmente aumentou a dificuldade e permitiu dar alguma graça para um passo que prima pelo tédio de 120 repetições com esforço próximo do zero. No dia seguinte, os dois antebraços estavam incomodando um pouco, mas nada de especial, bem tranquilo.

Meditação – Semana 3

É difícil perceber o progresso de um dia para o outro. Às vezes, a impressão é de a prática de um dia foi completamente ruim e inútil. Uma sequência difícil de meditações “trabalhosas”, em que a mente e o corpo parecem não estar colaborando, acabam deixando uma sensação de futilidade e frustração.

Na realidade, é justamente o contrário. As práticas difíceis são os momentos de maior progresso porque representam a manutenção do compromisso de encontrar a via interior mesmo quando as situações são adversas. Do fundo do lago, o lodo e as bolhas se levantam e o espelho se torna turvo. Contudo, essa é apenas uma situação temporária e logo as águas estão mais claras.

A prática do sábado foi mais curta que as demais por falta de ocasião para sentar e meditar. Apesar disso, a sequência de exercícios regulares começou finalmente a ser perceptível. Meu bom humor está mais constante e o número de ocasiões em que me irrito e fico remoendo o sentimento ruim por dentro está diminuindo.

Um pequeno avanço, mas é apenas um passo de uma longa caminhada através de vidas e vidas. =)

Dias de meditação: 7
Dias sem meditação: 0
Tempo médio de meditação [total]: 39 minutos e 51 segundos

Rota de Escape

Praticamente todos os adultos que conheci quando eu era criança e estava na escola me diziam que a infância era a melhor época da vida. Durante a adolescência, vários dos meus amigos que estavam nos 30 e poucos anos praticamente me imploraram para aproveitar o Ensino Médio, especialmente o 2º ano. Na universidade, alguns professores e os chefes no estágio falavam com nostalgia da época de faculdade deles – das festas, da rotina com os amigos, das férias de três meses.

As pressões autoimpostas e da sociedade só tendem a aumentar com o passar do tempo, a ponto de muitas pessoas de 40 anos ficarem em estado permanente de estresse e irritação, vivendo de forma miserável e irradiando toda a sensação negativa para a família, os amigos e os colegas de trabalho. Ainda assim, a retrospectiva acaba ocultando o fato de que juventude, adolescência e infância também tinham suas dificuldades, cobranças e angústias.

É uma tarefa complicada para um adulto imaginar que espécie de preocupações uma garotinha ou um menininho de cinco anos podem ter, mas basta lembrar que esses pequenos seres estão ainda aprendendo que tipo de ações agradam ou desagradam os pais, ainda não possuem noção de horas e compromissos e não atingiram a mentalidade de perspectiva para entender conceitos abstratos como “só no final de semana”. Na escola, precisam ao mesmo tempo corresponder às expectativas dos pais, atender às orientações das tias e transitar socialmente entre coleguinhas mais novos e mais velhos.

Logicamente, as crianças não analisam sua situação em palavras tão complexas, mas isso não quer dizer que elas não sintam toda essa pressão. As coisas apenas tendem a se agravarem quando avançamos alguns anos para o início da adolescência, quando o próprio corpo é fonte de confusão e as interações com os amigos, inimigos, rivais, ídolos, interesses românticos e sexuais são fontes quase infinitas de drama e ansiedade.

Na nossa sociedade brasileira moderna, a pressão para ter um desempenho satisfatório no ENEM e ser admitido em uma boa universidade, pública ou particular, participa dos anseios de uma geração que discute continuamente através das redes sociais temas banais como os episódios das séries mais populares e profundos como o papel da Polícia Militar e a identidade de gênero. Os atritos e demandas dos círculos sociais continuam existindo de forma similar à da adolescência, com a diferença de que agora se espera uma maior autonomia e responsabilidade emocional.

Tanta coisa ao mesmo tempo gerando pensamentos carregados podem provocar um verdadeiro curto-circuito no sistema mental de qualquer pessoa. Para isso, a maior parte adota para si uma ou mais rotas de escape. Nesse contexto, a diferença não vai estar tanto na legalidade ou não desse escape, mas na natureza das relações sociais que foram construídas até aquele momento e nas oportunidades que aparecerem.

Fugir do cotidiano não é novidade alguma. Elohim criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Os dias úteis são cinco [em teoria], enquanto sábado e domingo costumam ser reservados para o lazer e para as tarefas domésticas acumuladas. Os alunos têm direito a uma pausa de duas semanas no meio do ano [antigamente, um mês inteiro] e mais dois meses no Verão [antigamente, até três meses; alguns colégios mal concedem um mês e meio os dias de hoje]. Os trabalhados celetistas têm direito aos feriados oficiais e a 30 dias [úteis ou não] de férias [exceto naquelas empresas em que as férias são de mentira ou em que sempre são atrasadas/compradas].

As viagens são celebradas como ótimas escolhas para se escapar da rotina – pena que atualmente já não são uma lembrança pessoal de descanso, mas uma gincana de tirar fotos nos lugares em que todo mundo vai para mostrar que você também esteve lá. O álcool, através do happy hour e da ida ao bar no final do expediente da sexta-feira, é aceito como uma prática social normal. O cigarro, como mecanismo rápido de alívio de tensão, já não possui tanta aceitação e os fumódromos nas empresas são quase gaiolas de espécimes em extinção.

Os excessos são condenados em teoria e hipocritamente ignorados na prática – um porre no sábado é considerado aceitável desde que o funcionário se apresente para o trabalho na segunda às 8 horas. O uso de substâncias ilegais ou o uso ilegal de substâncias também costuma ser um assunto tabu e jamais levantado em conversas profissionais ou de pessoas com alguma classe. Hábitos considerados exóticos – como idas a clubes de swing ou grupos de meditação tibetana – são cochichados, mas nunca abordados diretamente.

Todas essas considerações demonstram que a sociedade compreende a necessidade de um alívio temporário das obrigações e responsabilidades, mas não sabe lidar com esse aparente “tempo perdido” para os indicadores maníacos de produtividade financeira. Não sabe tampouco como encarar as pessoas que escolhem vias diferentes das preconizadas e prefere tapar os olhos o máximo possível para não ter que questionar trabalhadores bem-sucedidos que cometem ilegalidades em seu tempo livre.

O único problema real que a via de escape apresenta é quando ela se torna muito mais atraente do que a rotina. O descanso sabático é para ser um período de renovação de forças e de mudança de perspectiva. Quando se torna um momento extremamente aguardado a ponto de roubar a atenção dos dias comuns, é óbvio que o cotidiano está pesando demais e as pressões estão começando a arruinar o equilíbrio psíquico da pessoa.

Em uma situação dessas, atacar uma via de escape recorrente seria como tratar somente da febre causada por uma infecção e não da enfermidade em si. Querer fugir da mentalidade diária e de suas situações associadas é um sinal muito claro de que há uma incompatibilidade entre coração e vivência. Infelizmente, o interesse por indivíduos sãos física e psiquicamente, de mente e espírito, é cada vez menor, desde que os números do dinheiro continuem subindo.