Livros Clássicos

por Hugo

Em um certo momento da vida, nós, que temos gosto pela leitura, chegamos a uma conclusão terrível: não será possível lermos todos os livros que gostaríamos. Simplesmente não há tempo suficiente, mesmo se a nossa profissão e nosso lazer fosse unicamente voltados para isso. Por lógica, precisamos escolher com cuidados os livros que leremos.

Os critérios, claro, são pessoais. Tenho um grande amigo que não tem o menor interesse em ficção. Não estou falando apenas em ficção científica, Asimov, Philip K. Dick e coisas do gênero. Ele só gosta de ler textos que exponham teorias, filosofem ou narrem acontecimentos históricos. Uma das raras exceções foi O Senhor dos Anéis e acho que só porque Tolkien descreve a Terra Média de tal forma que, em alguns pontos, parece um livro de geografia ou de linguística.

Além disso, não sou partidário da ideia de que existe literatura intrinsecamente ruim. Certamente existem escritores com pouco domínio sobre a língua ou sobre técnicas narrativas; o argumento do livro pode ser fraco e a trama óbvia demais ou desnecessariamente complicada. Ainda assim, como quase qualquer coisa, o valor do livro é individual, a partir do que o leitor pensa e/ou sente por ele. Por depender não só do pensamento, mas também das emoções e dos sentimentos, ler um livro não é um fenômeno puramente mental.

Daí que Harry Potter, por mais falhas possam ser identificadas por quem não tem a série em alta conta, será por muitas décadas lembrado nas listas de livros imperdíveis. Apesar de tudo, não quero entrar na discussão sobre a distância entre a experiência real e a análise técnica de um livro e muito menos debater sobre a validade de se classificar as coisas através da “Academia”.

Ainda assim, existe uma definição corrente no mundo da literatura que rotula alguns livros como “clássicos”, livros que seriam tesouros da humanidade e que deveriam ser lidos por todos. A classificação é bastante extensa e variável e, de uma maneira bastante razoável, inclui subgrupos como “clássicos da literatura nacional” ou “clássicos do realismo fantástico”.

No Brasil, temos um grave problema: nossos clássicos, em geral, são do século XIX. Não tiro, de forma alguma, o valor de Machado de Assis, aliás um dos meus autores favoritos, com seu “Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Acontece que é difícil para adolescentes de 14 ou 15 anos encararem livros como “A Senhora” ou “Amar, Verbo Intransitivo” de maneira forçada pela escola [e pelas cobranças do vestibular, já que a educação por aqui não está tão interessada assim em formar bons cidadãos quanto em aprovar alunos para a faculdade].

Mesmo considerando-se as listas internacionais, acredito em uma visão crítica. A enorme maioria dos clássicos são europeus e estadunidenses, basicamente porque quem montou as listas era de lá ou tinha um certo amor por essas terras. Da América Latina, Gabriel García Marques, Pablo Neruda e, até certo ponto, Jorge Luis Borges ganham certa atenção, mas existe um vasto contingente de autores simplesmente ignorados.

Aliás, como eu disse, nenhum livro é intrinsecamente ruim, o que naturalmente leva a que nenhum livro é intrinsecamente bom. Eu já li alguns clássicos dos Estados Unidos e achei-os medianos, no geral. “O Velho e o Mar” é curto e passável, “Huckelberry Finn” é chato e arrastado e “O Apanhador no Campo de Centeio” é supervalorizado. Na verdade, bons mesmo, só os livros de histórias curtas do W. Somerset Maugham, como “As Três Mulheres de Antibes” e “A Casuarina”.

Apesar de tudo isso, tendo apontado os problemas que vejo em chamar alguns livros de “clássicos” ou de rejeitar parte da literatura como “sem valor”, acredito que os clássicos possuem grande valor. Uma parte considerável dos livros que li é formada por essas recomendações de décadas, séculos e, em alguns casos, milênios, como “A República”, de Platão.

Alguns livros alimentam o imaginário de uma forma tão poderosa que valem a pena o desafio de ler, como os dois livros de “Dom Quixote de La Mancha”; outros têm méritos literários, são simplesmente muito bem escritos, como “Dom Casmurro”; alguns apresentam temas tão profundos que chegam a ser perturbadores, como “Os Sertões”; por fim, certos livros são simplesmente prazerosos de serem lidos, com personagens e tramas vívidos, como “Cem Anos de Solidão” e “Os Miseráveis”.

Penso que a origem da seleção de alguns livros como especiais foi a percepção de que não é possível ler todos os livros e a ideia de ter uma espécie de recomendação perene do que vale a pena. No entanto, é complicado saber se um livro vai ser bom – especialmente nos quesitos não-mentais – antes de realmente lê-lo. A saída é recorrer às clássicas combinações dos amigos; só é importante aprender a lidar com a expectativa e as perguntas de “E aí, leu?”, “É meu livro preferido, você gostou?”…

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