Iniciativa Própria

por Hugo

Iniciativa sempre foi vista como uma característica desejada. Sun Tzu recomendava que o general agisse sempre que houvesse a oportunidade, enquanto Maquiavel afirmava que a guerra era inevitável, apenas poderia ser adiada em benefício do seu oponente. Com a carreira e mesmo a escola sendo comparadas frequentemente a um campo de batalha, é até natural que os conselhos centenários dos dois autores sejam lembrados.

Atualmente, os entrevistadores buscam pessoas com “pró-atividade”, um termo francamente ridículo. Significa a mesma coisa que a velha iniciativa, mas embalado como um traço inovador e que só as estrelas possuem. Muitas vezes, assim que se é contratado, o empregador faz questão de enfatizar que espera essa “pró-atividade” e que o funcionário seja espontâneo e busque caminhos sem precisar ser mandado.

A ironia, claro, está no fato de que da escola à faculdade, a iniciativa é vista como algo a ser controlado. Qualquer criança com uma ideia diferente do sentido que a aula deveria seguir é repreendida e mandada de volta pra carteira. Com os erros sendo enxergados como algo repulsivo e absolutamente indesejável, o ímpeto de começar um projeto novo ou mesmo oferecer uma ideia heterodoxa vai ser embotando.

Apesar de tudo, existe um bom motivo para se valorizar a iniciativa. Um dos maiores temores que impedem a ação é o medo de não conhecer o resultado que pode surgir. Em parte, a solução é planejar com cuidado e tentar prever os contratempos mais prováveis, já pensando na maneira de contrabalançá-los. No entanto, o remédio principal é adotar a mentalidade apropriada e aceitar que, às vezes, as coisas dão errado e que tentando você obtém mais conhecimento sobre o assunto do que se ficar apenas teorizando, sem nunca fazer algo de concreto. Sim, falhar acarreta em prejuízo, mas deixar passar boas oportunidades e não se adaptar a mudanças também.

Empreendedor é uma palavra não muito usada no Brasil. Ela é mais prevalente nos Estados Unidos, onde o mito do “self-made man”, o cara que começa como contador e se torna dono de um império, talvez porque aqui tivemos longos anos de inflação descontrolada e ainda é forte o ideal de um emprego fixo como funcionário público. De qualquer modo, ser empreendedor é justamente ter iniciativa e começar um negócio, lucrativo ou não.

A associação entre o empreendedor e o homem que abre uma lojinha era válida até uns dez anos atrás, mas a internet modificou muitas regras. Um empreendedor pode facilmente começar seu negócio através de um site ou até uma página no facebook. Muitas lojinhas virtuais vendem serviços personalizados, como modificações em um celular ou brincos e colares de personagens de séries, sem possuírem uma sede física com uma vendedora que trabalhe de 9 às 18 horas.

Esta é uma segunda ironia em relação ao interesse das empresas em pessoas com iniciativa. Geralmente, não existe qualquer estímulo, além da subida em uma cadeia imaginária de cargos e títulos, para que o funcionário apresente novos conceitos e técnicas. Raramente uma companhia se dispõe a ceder os verdadeiros lucros de uma ideia a quem a produziu. Uma economia de milhões de reais pode ser recompensada com um final de semana em Búzios. Pouco atraente quando se encara dessa forma.

O negócio empreendido não precisa ter como objetivo ganhar dinheiro. É nesse ponto em que entram em cena os projetos pessoais, como o treinamento do Convict Conditioning e esse blog mesmo. Ninguém me mandou fazer isso e não li em algum manual que esse era o próximo passo para que eu me torne um milionário ou uma pessoa bem-sucedida. Eu apenas pensei o que queria – estar em forma, praticar minha escrita – e tive algumas ideias do que poderia me ajudar nesse sentido. Escolhi algumas e pronto.

Do ponto de vista financeiro, em que eu não recebo um centavo para fazer isso, parece uma perda de tempo, mas é preciso considerar que dinheiro não é parâmetro para tudo e que desenvolver esse tipo de habilidade amplia as possibilidades em todo tipo de área. Por exemplo, escrever melhor me permite ter mais facilidade para redigir relatórios ou até uma dissertação de Mestrado.

Por fim, uma ressalva: Sun Tzu recomendava o movimento rápido sempre que se tinha algo a ganhar com isso, mas apenas nestas condições. Segundo o antigo general, mover suas tropas sem propósito ou por capricho era um erro que poderia custar muito caro. Da mesma maneira, começar um projeto e largá-lo na segunda semana só vai aumentar sua frustração consigo mesmo. Por isso é tão importante analisar as consequências e entender muito bem qual o seu objetivo ao empreender um projeto.

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