A Tara pela Faculdade

por Hugo

Como foi que os Estados Unidos e a União Soviética acabaram com um arsenal nuclear capaz de destruir a Terra centenas de vezes? A corrida de armas, em que um lado sente que precisa demonstrar poderio militar equivalente ao adversário para ser capaz de negociar em condições idênticas, sem poder ser oprimido através da incapacidade de responder a um ataque, foi uma marca da Guerra Fria.

No mundo profissional e acadêmico, algo parecido ocorreu. Uma corrida de diplomas, em que ao invés de se focar no conteúdo ensinado em cursos, o “mercado” procura somente pelo título e pelo diploma na parede ou na gaveta. Algo está evidentemente errado quando concursos públicos para gari exigem diploma de Ensino Médio. Muito mais natural seria procurar candidatos fisicamente aptos ao enorme esforço de lançar sacos cheios de lixo e correr atrás de caminhões madrugada afora.

Há algumas décadas, formar-se no Ensino Médio era um grande acontecimento. Claro, naquela época, o Ensino Médio não era pasteurizado e uniformizado como preparativo de três anos para o Vestibular. Para começar, existiam, de forma geral, três caminhos diferentes depois do então Ginásio, hoje os 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental: o Científico, o Normal e o Clássico. Muitos encerravam seus estudos formais nessa etapa e trabalhavam a vida inteira nessas carreiras.

Logo, o Ensino Médio passou a ser visto como insuficiente. Para algumas profissões, realmente sempre foi dessa maneira. Existe há séculos o Ensino Superior em Engenharia, Medicina e Direito, três cursos universitários que continuam atraindo enorme demanda e oferecendo grande número de vagas em meio a centenas de outras profissões. Seria mesmo difícil confiar em alguém que não estudou os pormenores da Constituição para defendê-lo no tribunal ou o funcionamento biológico do corpo humano para receitar o tratamento adequado diante de uma enfermidade incapacitante.

No entanto, em muitos outros empregos, a experiência e, digamos, uma certa vocação natural sempre foram mais importantes do que qualquer curso de seis meses ou cinco anos. Dificilmente se aprende a ser um bom jornalista em salas de aula. Pode-se aprender a escrever de maneira atraente e a organizar as informações coletadas de forma coerente, mas não existe aula que garanta o mítico “faro pra manchete” e senso crítico para checar as fontes depende mais da vida total da pessoa do que do Coeficiente de Rendimento na universidade. Além disso, como em qualquer outra profissão, só depois de alguns meses ou anos é possível pegar o jeito do ambiente de trabalho.

Não quer dizer que é errado oferecer uma graduação em carreiras que não necessariamente precisem de um diploma de faculdade. O curso de Gastronomia pode garantir o aprendizado de forma adequada e gradual de receitas que dificilmente um chefe de cozinha aprenderia fazendo sempre o arroz e feijão em um restaurante popular, enquanto uma graduação em Artes Cênicas garante uma base teórica que pode não ser garantida se alguém apenas passar de uma estreia para outra.

Contudo, exigir o diploma de Ensino Superior para toda sorte de emprego é pura loucura. Ao invés de aproveitar uma força de trabalho jovem e dinâmica, com conhecimentos teóricos gerais, a grande maioria dos empregadores prefere analisar currículos atrás dos nomes das melhores universidades. Existe uma perversidade nisso: as empresas não querem o trabalho de treinar pessoal e capacitá-los através de cursos internos. Uma preguiça focada somente em custo/benefício de curto prazo.

O resultado foi o aumento expressivo e francamente descontrolado de universidades, faculdades e cursos por todo o país. Mensalidades mais baratas que as de colégio em troca não de uma educação de qualidade, mas de um papel para colocar no currículo. Explica-se daí a explosão seguinte. No início da década de 2000, o Ensino Superior passou a ser encarado como básico e a pós-graduação e o MBA entraram na jogada, como se quatro ou cinco anos de ensino integral não fossem o bastante.

Somam-se a esses requisitos os diversos conhecimentos adicionais obrigatórios. Há quinze anos, bastava ser capaz de usar o mouse e o teclado. Há cinco, conhecimento do pacote Office passou a figurar como importante. Hoje, muitas funções exigem uso avançado nessas ferramentas, bem como experiência em programas caros, como toda a linha da AutoDesk e da Adobe.

Não há sinais de redução. Para algumas posições técnicas – ou seja, que não dirigem outras pessoas nem estão sequer em nível de gerência ou supervisão -, os diretores de empresa começam a incluir o Mestrado como “formação desejável”, Antigamente, um título tão distinto que se recebia o direito de ser chamado de “Mestre”.

A faculdade adiciona tanto assim? A realidade é que não. Basta perguntar aos formandos de qualquer curso em qualquer faculdade. Várias coisas se aprendem, mas o currículo é estufado com matérias anacrônicas ministradas por professores sem didática. Boa parte do tempo ocupado na sala de aula poderia ser melhor utilizado no contato direto com o trabalho profissional. A solução inventada é cruel: não é à toa que o estagiário é amplamente conhecido como “escravo”.

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