Carreira e Hobby

por Hugo

Qualquer coisa que nos aconteça deve ser analisada com ponderação. Um artigo de jornal, um livro, um filme, uma série, a opinião de um amigo e até mesmo nosso próprio julgamento diante de um fato devem ser considerados com paz de espírito e de mente. Isso vale para qualquer postagem deste blog, mas especialmente para a de hoje, uma vez que a minha carreira profissional não tem décadas, mas alguns anos.

Frequentemente nos identificamos com o nosso trabalho ou a nossa profissão. Quando nos perguntam “o que você é?”, nosso primeiro pensamento não é responder “eu sou brasileiro” ou “eu sou politicamente conservador”, mas falar em trabalho: “eu sou analista de mídias digitais”, “eu sou engenheiro eletricista”, “eu sou CEO de uma multinacional de tampinhas de garrafa”.

É uma associação até certo ponto natural. Já diziam que “você é o que você faz”. Acontece que o seu trabalho não é – ou não deveria ser – a única coisa que você faz na sua vida. Teoricamente, você ocupa mais ou menos oito horas do seu dia no ambiente profissional. Se descontarmos outras oito horas de sono [com erro de quatro horas, para mais ou para menos], existe toda uma outra metade do seu dia em que você tem assuntos diferentes em mente.

[Não tem a ver com esta postagem, mas vinte e quatro horas no dia – oito horas de sono – uma hora para chegar no trabalho – oito horas de trabalho – uma hora de almoço – uma hora para voltar do trabalho = cinco horas para todo o resto de atividades que você quer fazer… esse esquema de trabalhar de 8 às 17 horas em cidade grande não parece uma ideia tão boa assim, parece?]

A definição de hobby ou passatempo costuma ser na linha de “algo que você gosta de fazer, mas que não paga as suas contas”. Se você pensar no que faz em seu tempo livre, esse conceito se aplica? Minha impressão é que ele implica uma definição bem amarga do seu trabalho, “algo que você não gosta de fazer, mas que paga as suas contas”…

Dinheiro não é algo trivial. Aliás, só é para quem tanto que não sabe sequer como gastá-lo. Para quem tem conta de luz, gás, telefone, celular, aluguel e condomínio todo mês para pagar, a ideia de não ter uma fonte de renda parece uma péssima visão. Portanto, não estou de forma alguma querendo dizer que você deve fazer somente o que te diverte, independente dos ganhos. Comida não brota magicamente na mesa nem plano de saúde se paga por mágica.

Mesmo assim, é uma péssima ideia trabalhar em um emprego que te faça sentir cansado, estressado, humilhado, desanimado, desperdiçado. Uma boa definição para passatempo seria “algo que eu gosto, mas não é meu foco”, onde o trabalho viraria “algo que eu gosto e que é meu foco”. Como um guitarrista que se aventura no piano. Tocar guitarra é o trabalho, tocar piano é o hobby.

Ainda que seu trabalho seja algo que você goste muito – e, não, isso não é impossível, mas vai ser difícil encontrar um olhando apenas o contracheque na hora de escolher -, você não é ele. Você é muito mais do que o seu emprego. Não é a sua labuta diária que te define, mas o que você sente, o que você pensa, o que você deseja e o que você faz desde o segundo que acorda até a hora de dormir.

A ideia de “carreira profissional” envolve um longo período da sua vida passando por diferentes fases dentro da mesma linha profissional. Se você está trabalhando em algo que não gosta, é uma boa ideia começar a procurar um caminho diferente ou você vai se ver preso durante três ou quatro décadas e isso vai destrui-lo. Se você acredita que não pode simplesmente largar o seu emprego, comece a pensar de forma maior nos seus hobbies ou nos assuntos sobre o que gosta de ler ou assistir.

Comece a planejar projetos pessoais, empreitadas de tempo limitado [de preferência, menor do que um ano] em que você se aventura a fazer algo – não se trata de um empreendimento completamente descompromissado, mas também não é a sua única aposta. O treinamento do Convict Conditioning, por exemplo, é um projeto pessoal meu, com o objetivo de criar o hábito de me exercitar e manter meu corpo ativo. Ele não envolve ganhar dinheiro, mas representa um grande avanço de qualidade de vida. Esse assunto é bastante vasto e pretendo um dia explorar um pouco mais a ideia.

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