Homens que Não Amavam Mulheres

por Hugo

Terminei recentemente de ler o primeiro livro da série Millennium, “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, de Stieg Larsson. De início, a história não me envolveu, mas eu aprendi com “Cem Anos de Solidão” que é possível demorar para engrenar a leitura de um livro e ser recompensado com algo marcante. Foi o caso.

De antemão, eu sabia que Larsson era um jornalista investigativo sueco que escrevera os três livros da série, mas morreu antes de ver o primeiro publicado e fazer um sucesso estrondoso. Estava ciente da motivação dele – quando novo, o autor passou ao lado de um grupo de pessoas onde uma jovem era abusada por um número de jovens rapazes. Aparentemente, Stieg nunca conseguiu tirar da cabeça o fato de não ter vencido a “apatia do observador” e feito algo para ajudá-la.

Como jornalista investigativo, Stieg Larsson se dedicou à sua revista Expo, onde publicava matérias denunciado grupos nazistas e de extrema direita. Recebia inúmeras ameaças de morte e, por isso, não se casara com a companheira de vinte anos, visto que para oficializar a união, precisaria declarar o local de residência e isso seria muito perigoso.

A trama do livro é interessante e o mistério, apesar de não ser sem solução para o leitor, tem reviravoltas o suficiente para fazer com que as mais de quinhentas páginas passem depressa. O que me impressionou, no entanto, foi uma cena em que ocorre um abuso de poder e resulta em violência sexual. Descrita de uma maneira tão crível e natural, a interação me fez sentir um ódio imenso, não pelo personagem, mas por saber que aquilo acontecia todos os dias na vida real e existem milhares e milhões de homens nojentos que usam da força – física, social ou psicológica – para submeter mulheres a uma condição de boneca para sexo.

No meio do caminho, li uma entrevista com Eva Gabrielsson, a companheira de Stieg que, por não ser casada, pelas leis da Suécia, não teve direito a uma coroa do dinheiro do homem com quem dividia a vida. Com as palavras dela em mente, terminei o livro com uma inquietação profunda.

Larsson escreveu a história fincada em temas que ele acreditava que precisavam ser olhados pela nação: a violência contra a mulher, a corrupção da imprensa, o comportamento das empresas capitalistas e dos controladores e corretores da bolsa de valores. Transparece através dos capítulos, que não têm nome, mas indicam o espaço de tempo que transcorre na ação descrita, a urgência que o autor sentia em evidenciar assuntos que eram solenemente e conscientemente ignorados pela população de um país que constantemente é apontado como modelo de democracia e governança.

E aí, o foco recai sobre a morte de Larsson ao subir as escadas do prédio onde trabalhava em uma manhã quando o elevador estava quebrado. Foi nesse momento em que senti mais raiva ainda do filme e da versão estadunidense do livro. Não por conta de qualquer adaptação que tenham feito na trama em si na hora de passar para o cinema, quanto a isso jamais há esperanças. O pior de tudo foi mudarem o título!

O título em português já possui um erro conceitual, embora perdoável. No original, não são “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, mas “Homens que Não Amavam Mulheres”, sem os artigos definidos. Em outras palavras, o título e a história não falam de alguns homens em específico, um grupo limitado que não amavam determinadas mulheres, mas de uma categoria de homens, de qualquer origem e local, que tinham em comum uma falta de amor por toda e qualquer mulher.

Ainda assim, é bastante aceitável como título. A versão do Estados Unidos, não. “The Girl with the Dragon Tattoo”, “A Garota com a Tatuagem de Dragão”, desloca completamente o foco da história para a garota exótica com uma tatuagem mencionada, aliás, apenas umas duas ou três vezes nas quinhentas páginas. Sai a temática complexa e demolidora, entra a objetificação de um tipo de mulher que pode figurar nas fantasias dos leitores em potencial.

Larsson provavelmente renegaria essa ideia pensada por um dos muitos “homens que não amam mulheres”…