Errando

por Hugo

Um dos maiores males causados pela forma que estruturamos a nossa sociedade é que temos uma aversão enorme e desproporcional ao erro e à falha. A escola nos ensina isso, a faculdade reforça, a família mantém a pressão, as religiões condenam e no trabalho, um grande número de gerentes, supervisores e chefes prefere dizer exatamente o que seus subordinados devem fazer a estimular qualquer gênero de iniciativa própria.

No colégio, somos submetidos a testes e provas onde errar significa perder pontos cruciais para passar de ano. Muitas escolas elevam o percentual mínimo de acertos de metade [50%] para 60% ou 70%! Algumas escolas são capazes de cobrar até mesmo 80% de respostas certas. A pressão pela resposta correta na hora da prova é tanta que a enorme maioria dos alunos recorre à cola, para a qual muitos professores fazem vista grossa. Todas as semanas de aula e todo o conhecimento são auferidos naquelas duas ou três horas de avaliação.

Evidentemente, isso não faz o menor sentido. Basta olharmos para a maneira com que as coisas se desenrolam na natureza. O próprio processo evolutivo é um sistema de tentativa e erro onde as mutações que não melhoram as chances de sobrevivência da espécie ocorrem aos milhares até que uma mutação positiva – para aquele ambiente e aquele momento, claro – apareça e seja beneficiada no esquema reprodutivo.

Da mesma forma, os erros podem ser extremamente benéficos para o aprendizado. Como diria o Jake de Adventure Time, “ser uma droga em alguma coisa é o primeiro passo para ser mais ou menos bom nessa coisa”. Se você está começando a tocar violão, vai errar a posição dos dedos o tempo todo. Se está aprendendo a dirigir, o carro vai morrer e você vai ligar a seta pro lado errado. Se está aprendendo a cozinhar, o arroz vai queimar e a massa vai ficar meio crua. É normal em qualquer campo.

Isso não significa, contudo, que devemos simplesmente começar toda tarefa ou empreendimento de pronto, sem raciocinar e planejar de antemão, tentando na marra e na sorte encontrar uma solução desejada. Não foi à toa que desenvolvemos o método científico e toda a escola de pensamento econômica e administrativa. Antes de procedermos diante de um desafio, faz muito bem sentar com todos os envolvidos e discutir ideias, planejar abordagens e, mais do que isso, analisar cada experimento para acumular conhecimento a partir dos sucessos e fracassos.

Uma boa estratégia é o melhor caminho para diminuir o número de erros até o sucesso, mas precisa estar aliada à coragem de encarar as falhas e corrigi-las prontamente. Muitos empregados e colegas têm tanto medo de admitir um erro que preferem ficar quietos e deixar a coisa crescer ao invés de abrir o jogo e buscar uma solução rápida. Não é totalmente culpa deles – muitos chefes pisoteiam tanto em quem erra que parece que a terceira trombeta do Apocalipse soou.

Uma parte do nosso pavor ao erro está na vergonha que sentimos e na fobia de sermos julgados como incapazes ou incompetentes pelos outros. Na escola, arriscar a resposta errada quando o professor perguntava algo era uma maneira fácil de se tornar alvo de piadas e risinhos de escárnio da classe. É cruel e muitos professores jamais se dão ao trabalho de reforçarem a ideia de que é melhor tentar e falhar do que ficar com medo e não arriscar. A única possibilidade de vencer essa fobia social é tomar coragem e tapar olhos e ouvidos para críticas destrutivas de quem gosta de humilhar os outros que estão em posição vulnerável. É preciso tomar cuidado para se esquivar somente daquilo que é maldoso; muitas críticas servem como ponto de partida para uma autoanálise e para uma futura tentativa bem-sucedida.

Por fim, é essencial ter uma mentalidade ousada. Falhar é uma possibilidade real e é preciso respirar fundo e não se identificar com o mal resultado, se ele acontecer. Você deve, sim, assumir toda responsabilidade que lhe couber e fazer tudo ao seu alcance para reparar o dano, mas jamais deve se enxergar como um fracasso ambulante ou alguém que nunca vai dar certo. A pior coisa que pode acontecer é você errar de novo e, com uma boa estratégia e persistência, você eventualmente se encaminha para algum sucesso. E o melhor? Você fica cada vez melhor em identificar possíveis armadilhas na fase de planejamento, em encarar as falhas como passos para a vitória e em encontrar o sucesso depois de menos erros.

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