Estudo Errado

por Hugo

Eu tirava boas notas no colégio, mas não era um bom aluno, especialmente no Ensino Médio. Era daqueles que tiravam xerox da matéria da melhor aluna da classe na manhã do dia da prova e o caderno tinha uma matéria de março, outra de setembro e algumas coisas aleatórias. No terceiro ano, eu simplesmente dormia em quase todas as aulas ou ficava conversando se já tivesse descansado o bastante.

Claro que isso resultou em uma dificuldade maior na faculdade. Engenharia já é um desafio para quem copia tudo o que o professor escreve ou fala, que dirá para quem passou os períodos contando o número de faltas para tentar evitar reprovações por presença insuficiente – e falhando uma dezena de vezes…

Isso não significa que eu não gosto de aprender. Na verdade, é o contrário: TVTropes e Wikipedia são verdadeiros portais para outra dimensão, em que eu fico pulando de página em página durante horas, lendo sobre vários assuntos, desde história da Finlândia no século XIX à biografia de Gloria Swanson. Se eu tivesse memória fotográfica, certamente me daria bem em concursos de trívia.

Então, qual é o problema? É a escola. Eu levei alguns anos para finalmente entender por que o meu gosto por leitura e por aprender e as amizades que eu tinha na turma do colégio não eram o suficiente para me fazer sentir empolgado com as aulas. Depois que eu já estava na faculdade, enfrentando sérios problemas por não me adaptar ao modelo vigente – paquidérmico e arcaico, na minha opinião -, eu tive contato com uma série de vídeos, documentários, textos, artigos, livros e pessoas que, de modo geral, debatiam aquilo que eu sempre senti e não sabia: a escola desensina.

Minha primeira pista nesse caminho foi uma música do Gabriel, o Pensador, chamada “Estudo Errado”, que depois de uma chamada típica de escola, começa com “Eu tô aqui pra quê? Será que é pra aprender? Ou será que é pra sentar, me acomodar e obedecer?”. Por mais que eu gostasse da Tabela Periódica e das equações de segundo grau, por quê raios na escola não aprendi a declarar o imposto de renda – e para quê, afinal, eu pago esse imposto e como posso saber que ele está sendo bem utilizado? Por quê não me ensinaram a cuidar do meu orçamento ou quais são meus direitos como cidadão?

Pense nas escolas que você estudou e nas que conheceu. Para usar um bom modelo, pense no exterior e nas imagens – provavelmente oriundas de reportagens de televisão – das escolas municipais e estaduais. Com que outras instituições da sociedade elas parecem? Corredores longos com iluminação artificial, uniformes, pátio de recreio, muros, horários para tudo? Três lugares surgem na minha mente: prisões, hospitais e manicômios. O objetivo da estrutura física da escola não é o bem-estar dos alunos, mas simplesmente a forma mais prática de um ponto de vista econômico de produção para mantê-los facilmente sob controle durante o horário em que precisam ficar “guardados” ali.

Por que as crianças e os adolescentes são divididos da forma que são? Classes que vão desde os dois anos até os dezoito, divididas por ano. Se você tem 9 anos, deve estar no 4º ano do Ensino Fundamental. Se tem 15, está no 9º ano do Ensino Fundamental ou talvez no 1º ano do Ensino Médio, dependendo da sua data de nascimento. Por que essa divisão etária? As pessoas aprendem melhor se estudarem com pessoas da sua idade? Ou se estudarem com pessoas com um ritmo de aprendizado similar e com mais ou menos a mesma experiência no assunto? Se o argumento da idade fosse realmente uma grande autoridade, as turmas dos cursos de idiomas seriam sempre reguladas assim, e não através de um teste de nivelamento. As classes escolares seguem o esquema etário porque “é mais fácil” para quem organiza. Esse argumento, aliás, é a resposta para quase todas as perguntas que eu propuser aqui.

Por que os estudantes usam uniforme? Quem mais usa uniforme? Os soldados, os policiais, os prisioneiros, o pessoal de saúde, até certo ponto… por quê usam uniforme? Mais do que para serem mais facilmente identificados pelos outros, usam uniforme para se identificarem com uma persona, uma máscara. Quando o soldado coloca a farda, ele deixa de se identificar com a identidade civil dele e passa a se enxergar como um “guerreiro da nação”. Os prisioneiros perdem o senso de identidade e passam a se enxergar como “condenados”. O estudante é conduzido a não se destacar, exceto se for para ganhar uma estrelinha na testa por ser mansinho e agradar o professor.

Por que nosso sistema de avaliação é da maneira que é? Por que fazemos testes e provas, se isso é completamente artificial? Na hora de conversar com um desconhecido em inglês, você vai mostrar a sua nota no CAE ou o seu diploma do Brasas? Se precisar entender o que aconteceu em um livro, vai usar sua nota de redação, literatura ou português? Por que os trabalhos na escola e na faculdade quase sempre exigem apenas habilidades no Google e um pouco de capacidade na hora de costurar os textos encontrados? Por que raios determinamos tema de redação, se não é para ficar mais fácil encontrarmos palavras-chave no texto?

As perguntas, honestamente, podem se multiplicar às dezenas. A estrutura da escola é montada – e isso inclui as qualificações dos funcionários e professores, os livros didáticos e todo o currículo, de maneira geral – tendo em vista o que é mais interessante para quem domina a economia e a política do país, não o que é mais interessante para a criança e para o adolescente. Pior do que “simplesmente” nos fazer perder centenas e milhares de horas da nossa existência, no entanto, a escola ainda por cima nos deseduca e nos prejudica.

A escola ensina conformismo; ensina para cada pergunta, existe uma resposta com as palavras certas que vale um ponto completo e que, na maior parte das vezes, essa resposta envolve repetir as palavras da questão; ensina que quando o professor/chefe/doutor/policial/juiz fala, você tem que se calar e, pior, não pode questionar aquela autoridade; ensina que existem coisas que devem ser estudadas e coisas que devem ser ignoradas como “superstição” ou “desimportantes”; ensina que você vale o número que sai no seu boletim, não as suas atitudes com os seus colegas; ensina que ficar trancado dentro de uma sala por horas contra a sua vontade é normal e que se você faltar mais do que alguém acredita que você deveria, você não está aprendendo.

Mais do que tudo, ensina que aprender é uma fase chata que dura até a idade adulta. Assim que você se formar e tiver um canudo de papel para mostrar pro mundo, não vai precisar mais ler coisa alguma porque sua tarefa de “aprender” está encerrada. Pior do que isso, ensina que aprender é ouvir o que uma suposta autoridade tem a dizer sobre um tema e decorar as palavras do discurso que podem ser cobradas mais tarde. Aprender é como ser um passarinho de bico aberto no ninho, esperando que a “mamãe” venha enfiar o conhecimento goela abaixo. Você só aprende o que outra pessoa diz que você tem que aprender e não tem o direito de querer entender outra coisa.

Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada

Anúncios