O Caminho Pessoal

por Hugo

Buddha sentou-se sob a figueira para meditar e somente levantou-se quando atingiu a Iluminação. Em seu primeiro discurso, no 50º dia, ele apresentou seu caminho do meio e as Quatro Nobres Verdades:

  1. Existe dukkha.
  2. A principal origem de dukkha é taṇhā.
  3. É possível cessar dukkha, através de nirodha.
  4. O meio para nirodha é o Nobre Caminho Óctuplo.

Os conceitos são simples, mas, ao mesmo tempo, exigem constante trabalho interno e grande coragem para romper todas as imposturas impostas e autoimpostas. Buddha não atira a responsabilidade para um ente fabuloso e etéreo nem joga a culpa no mundo cruel e injusto. Ele chama à responsabilidade a única pessoa capaz de fazer algo por você – você mesmo.

Nós somos coisas frágeis com vidas breves. Tudo o que possuímos são momentos e memórias, as experiências que temos uns com os outros e no nosso íntimo. Podemos viajar o mundo inteiro e não viver; podemos ler mil livros e não aprender; podemos conversar com as mesmas pessoas por sete décadas e não as conhecer. Podemos ter existências pobres e miseráveis, com uma sensação de impotência e futilidade.

Podemos passar o tempo inteiro obedecendo a ordens externas. Obedecer pai e mãe, obedecer a tia na escola, obedecer os adultos que sabem o que estão fazendo, obedecer o colega mais forte, obedecer a namorada e o marido, obedecer o patrão, obedecer o governo, obedecer o jornal, obedecer a sociedade, a moral, os bons costumes, a pátria, a família, o bem, o bom, o belo, o padrão, o sonho de consumo, tudo.

Ou podemos ter bravura e caminhar por nós mesmos. Dar um passo e depois outro sabendo que existem riscos e que você nem sequer os conhece. Podemos escolher por nós mesmos se vamos à faculdade ou não. Podemos escolher termos muitos parceiros românticos e apenas um sexual, ou muitos parceiros sexuais e nenhum romântico. Podemos ignorar os Livros Sagrados e criar a nossa própria religião, com uma vela acesa para Nossa Senhora e outra pra Afrodite. Podemos abrir mão da segurança da carteira assinada, do contracheque no quinto dia útil, da aposentadoria no final da vida para empreender as ideias sensatas e malucas que temos o impulso de seguir e o medo de não dar certo.

É por isso que eu comecei a escrever aqui. Eu quero viver de forma coerente com o que eu sinto e acredito, não sob as regras de um jogo que nem me chamaram a aceitar. Eu quero ser um pontinho no mar a dizer para quem quiser ler ou ouvir que a regra do jogo não é dinheiro, mas uma versão melhor do amor de cada dia, um sentimento que faz a gente se sentir vivo e com vontade de estar no presente, não no passado e nem no futuro.

Esse é o meu objetivo – viver melhor. Não viver mais anos, não estar em todos os lugares, não provar todas as coisas. Simplesmente viver mais feliz comigo mesmo. Antes de começar, fiz uma pequena lista de assuntos sobre os quais gostaria de escrever. Principiei com algo que me dê motivo para escrever regularmente – o treinamento físico com o Convict Conditioning. Quando fui digitar a primeira postagem teórica, pensei em quando eu tinha treze anos e li sobre as Quatro Nobre Verdades.

Eu não sou budista e nem sequer conheço tanto assim sobre Buddha, só que foi mais forte do que eu. Como me ensinou Malba Tahan, “Maktub!”. Ainda estou tentando entender meu caminho pessoal, mas estou aprendendo a respeitar as coisas que tomam força por si próprias. Pode ser que pouquíssimas pessoas leiam o que aqui está e pode ser que eu nunca chegue a cem postagens, mas tudo bem. Eu não cobro de mim um sucesso por parâmetros imaginários, mas somente que eu seja honesto comigo mesmo, uma dia por vez.

Resolução coerente.

Anúncios