Aprendendo

por Hugo

Estava lendo recentemente o excelente primeiro livro da série Millenium, “Os Homens que Não Amavam as Mulheres”, de Stieg Larsson. Em dado momento, Blomkvist explica que “já terminou os estudos há muitos anos”. Nossa sociedade caminhou em direção a um sentido esquisito, em que os “estudos” são vistos como uma etapa penosa e preparatória para a “vida real”, de trabalhador assalariado, e que uma vez diplomado o suficiente [Ensino Médio? Superior? Pós-Graduado, Mestrado, Doutorado, Pós-Doutorado, o escambau?], acaba-se a agonia do aprendizado.

Acontece que estamos o tempo inteiro aprendendo, desde a coisa mais banal, como o nome do amigo do amigo, até a forma mais apropriada de desempenhar sua função profissional. Estamos até mesmo a aprender a caminhar, mesmo depois de décadas de prática – é só que o ganho adicional é ínfimo em relação ao total acumulado.

Seria um erro utilizar agora a primeira pessoa do plural, o nós, para descrever como o ensino tradicional foi idealizado. “Nós” não fizemos muita coisa; um grupo – a elite política de dois séculos atrás – pensou em termos macroeconômicos o que era melhor para as finanças do país e, assim, surgiu o ensino universal, as escolas, as séries e a faculdade como conhecemos.

Infelizmente, esse é um processo muito antinatural. Que raio de preparação é essa que nos desemboca no mundo adulto sem nos ensinar como fazer o imposto de renda e quais são as funções do deputado estadual e do deputado federal? Mais do que isso, por quê existe imposto, como ele é usado e por quê existem câmaras legislativas de representação da vontade popular?

Não estou dizendo que devemos queimar os livros escolares. Muito do que aprendemos ali é interessante e poderia ser melhor absorvido se ensinado de uma maneira mais humana e menos tosca. Nos inculcam a ideia de que aprender é tirar nota boa na prova e receber diploma. É necessário um esforço ativo para se livrar dos grilhões desse pensamento. Não é preciso um curso formal com um instrutor para aprender boa parte do que nos interessa [naturalmente, certos caminhos, como a Engenharia e a Medicina, se beneficiam profundamente do ensino em faculdades]. Melhor ainda, você pode determinar sua própria grade de horários, suas próprias metas. Não precisa ser algo “útil” para os tempos modernos, onde utilidade = produzir dinheiro. Basta que seja algo que lhe satisfaça.

Mais do que decorar nomes de capitais e partes das células, deveríamos aprender a aprender, aprender a buscar as informações e praticar por conta própria. Essa deficiência nos limita em muito. Para nossa sorte, temos a internet e se você puder ler em inglês, terá acesso a um repositório grandioso sobre qualquer assunto. Só é preciso uma abordagem inteligente, resolução e capacidade de errar até acertar.

O primeiro artigo desta série vai ser justamente sobre o que a escola nos “desensina”.

Anúncios