A Cessação do Sofrimento – Nirodha

por Hugo

Após ensinar sobre a realidade de dukkha – o sofrimento, a angústia, a ansiedade, a falta de equilíbrio -, o Buddha explicou sobre a principal origem dessa condição, taṇhā, a sede que nos consome e que representa determinados tipos de desejo.

Imaginando o monge como um médico, ele explicou a existência da doença e apresentou a causa. Faltam dois passos muito importantes e cada um deles corresponde a uma Nobre Verdade. Este é o momento em que o paciente se alegra porque o doutor diz “amigo, é possível curá-lo ao se fazer ‘x’ com sua doença”. Buddha diz que essa nossa falta de equilíbrio não é inescapável e que podemos nos sentir melhor!

Nirodha é a palavra-chave da Terceira Nobre Verdade e tem como tradução comum “cessação”. No entanto, a história é bem mais complexa do que essa. Assim como taṇhā não é desejo em geral, mas uma espécie em particular que, apesar de representar a esmagadora maioria, não engloba toda sorte de vontade que tenhamos, cessação é meramente a tradução em português do mesmo ato a que nirodha se refere no linguajar cotidiano, a ação de extinguir ou apagar uma chama.

A complicação está no fato de que “extinguir”, “apagar” ou fazer “cessar” uma chama remetem a matá-la. Quando você apaga uma vela, você está extinguindo a vida daquele fogo. Ocorre que, para o contexto histórico do Buddha, quando acendíamos uma vela, era como se capturássemos a chama, que ficava presa naquele pavio. Ao “apagar” a vela – nirodha – não estaríamos matando, mas libertando a chama!

Com nirodha, o objetivo não é abafar e sufocar os desejos representados por taṇhā! Todos bem sabemos, através de décadas de estudos psicológicos e psiquiátricos, que a repressão desse gênero de pensamentos e vontades normalmente resulta em danos seríssimos para a própria pessoa e para todos que estiverem ao redor.

A saída, portanto, não é simplesmente asfixiar nossas vontades que levam a dukkha, mas libertar essa chama, deixar que ela se veja livre da nossa mente e retorne para sua fonte original. Não é uma luta, mas uma liberação, o ato pacifista de não só não combater aquela vontade, mas observá-la de longe e dizer “você não sou eu, eu não sou você, sê livre como eu sou”.

E como fazer isso, como colocar esse ensinamento em prática? Esse é o propósito da Quarta Nobre Verdade e do Nobre Caminho Óctuplo.

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