A Verdadeira Vontade

por Hugo

Todos nós fazemos uma série de perguntas existenciais: de onde viemos? A vida é apenas uma, morreu, acabou? Existe um céu, um inferno, um julgamento dos mortos? Daquele tipo de coisa que você se pega pensando antes de dormir no domingo ou no meio de um dia muito tedioso de trabalho ou de faculdade…

Entre todas essas questões, existe uma de particular importância: qual o meu propósito? O quê eu estou fazendo aqui, na Terra, com um corpo humano, com essa mente, esses braços, essa boca? Por quê eu e não outra pessoa, por quê aqui e não em outro lugar, por quê agora e não em outro tempo?

Essa é uma pergunta complexa. Não vou fingir que tenho uma resposta definitiva. Aliás, qualquer um que diga que tem uma resposta infalível e certeira para essas perguntas muito provavelmente não passa de um charlatão aproveitador. O que eu posso compartilhar é minha visão pessoal sobre o assunto.

Entre os ocultistas, existe um termo bastante famoso e que dá título a esta postagem, a “Verdadeira Vontade”, com maiúsculas. Essa Vontade se distingue do que a gente sente na maior parte do tempo e não passa de meros desejos temporários, interesses corriqueiros, coisas que, pelo meu entendimento da Segunda Nobre Verdade, levam somente a dukkha.

Se você fosse capaz de observar sua vida “de fora”, de um ponto de vista isento e sem a paixão característica dos humanos, talvez percebesse um certo padrão, uma tendência. É difícil colocar em palavras porque se trata de algo metafísico, literalmente “além do físico”. Sabe como é complicado explicar para alguém a sensação que se tem quando a pessoa de quem gostamos reconhece a nossa existência, diz um ‘oi’ ou sorri na nossa direção? Então, tudo que transcende a experiência racional da matéria está muito além do reino das palavras.

O Universo é como um grande fluxo – como um rio, se esse rio pudesse se mover em qualquer direção e para dentro e fora de si e para o passado e para o presente. Quanto mais alinhados a esse fluxo, quanto mais equilibrados, mais harmonizados, mais nos sentimos bem; quanto mais resistimos e lutamos contra o que realmente somos, pior ficamos.

Não se engane, esse grande fluxo não é o “bom senso”, o “senso comum”, “a moral e os bons costumes”, “o plano de carreira”, o “mainstream”, nada disso. Isso tudo é invenção humana, das nossas limitadas cabecinhas e percepções. O fluxo universal é suave e ao mesmo tempo em que abrange o todo, é particular para cada um. A sua vida não precisa e não deve ser igual a de mais ninguém.

É aí que entra a tal da “Verdadeira Vontade”! Teoricamente, você nasce embutido com essa fagulha, essa propensão para seguir em determinada direção no fluxo. Existe algo dentro de si que impele, que motiva, que implora que você faça certas coisas, que você viva certas experiências. Há quem diga que aqueles momentos de intuição ou de sexto sentido são nossa mente tendo um rápido acesso a qual linha do fluxo seguir.

Como descobrir a própria Verdadeira Vontade? A maneira mais segura é o autoconhecimento e, por sorte, como temos aí uns cinco ou seis milênios de boa história registrada, muitas pessoas antes de nós pensaram nesse assunto. Uma série de técnicas e recomendações foram sugeridas e apresentadas. Entre as mais modernas, está a análise psicológica, em que você busca entender a sua personalidade a partir de estudos de grandes mentes como Freud, Jung, Lacan… Entre as mais antigas, está a prática da meditação e da devoção ao divino em múltiplas formas – a natureza, os antepassados, o Sol, a Lua, a Terra, um avatar, Deus, Orixás, encantados…

Mas mesmo essas técnicas e sugestões todas são apenas isso – técnicas e sugestões. Você pode ignorar tudo isso e se resolver a explorar o mundo, tanto externo quanto interno. Não significa fazer simplesmente o que der na telha – como já foi dito lá em cima, a Verdadeira Vontade é muito diferente dessas vontades comezinhas que a gente tem de comer chocolate e depois reclamar que tá engordando. Explorar significa se aventurar, aceitar o risco de insucesso como algo natural e nem um pouco ruim, descobrir do que se gosta e do que não se gosta através da própria cabeça, absorver o que puder de toda fonte de livros, de filmes, de quadrinhos, de conversas com pessoas, de religiões, de filosofias, da ciência e da tecnologia…

Não tem GPS nessa exploração, contudo. Não tem um ‘bip’ de aviso se você estiver saindo de rota e nem se você estiver se aproximando de qualquer coisa que possa imaginar como “destino”. É um terreno livre, inexplorado, desconhecido, enorme. Dá medo, mas é pra ser assim mesmo. Desde pequenos somos doutrinados a temer algo que fuja do plano certinho autoimposto e indicado pela sociedade, por quem acha que entende alguma coisa. Não se prenda nesse tipo de barreira. Existe em você bem mais do que isso.

Existe em você sua Verdadeira Vontade que está aí, nesse momento, pulsando dentro de você, não como uma lâmpada de energia elétrica, mas como um quasar, complexa e simples.

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