A Origem do Sofrimento – Dukkha samudaya

por Hugo

Se a primeira das Quatro Nobres Verdades afirma que existe o sofrimento e explica em que formas ele se apresenta, ela não responde a uma pergunta fundamental: por quê sofremos tanto? De onde vem essa angústia, essa ansiedade toda? A resposta é a Segunda Nobre Verdade, dukkha samudaya, que nos revela que a origem de dukkha está nas ânsias e nos desejos (taṇhā) condicionados pela ignorância (avijja).

Agora, antes de mais nada, é importante explicar que taṇhā, cuja tradução mais aproximada seria sede, não é a única causa de dukkha e tampouco é algo sem origem. O que o Budismo apresenta é que essa sede que temos dentro de nós é o principal fator que nos arrasta para o mundo de sofrimentos e frustrações. Ela não é uma causa primordial porque é, por sua vez, provocada pelas sensações que são geradas pelo contato com outras coisas e por aí vai, em um ciclo eterno.

Pois bem, taṇhā clama através de três canais:

  1. kama-taṇhā é a ânsia por sensações prazerosas ou sensuais e pelas coisas que nos proporcionam prazer. Aqui não se trata somente de sexo ou de um arroz à piamontese com um escalopinho de filé mignon ao molho madeira, mas também de ideologias, opiniões, crenças, sentimentos que nos causem gozo sensorial/sensual.
  2. bhava-taṇhā é o desejo de ser e de experimentar. Como seres viventes, temos dentro de nós a vontade de continuar existindo e vivendo e experimentando e até mesmo de termos um passado e um futuro. Este é um aspecto extremamente traiçoeiro de taṇhā porque é justamente onde o Ego se instala. Discutir a questão do Ego, como um parasita diferente de quem é você de verdade, está muito além do escopo desta postagem e vai ficar para outra ocasião.
  3. Finalmente, o contrário, vibhava-taṇhā também existe e é a vontade de não ser, de não estar consciente do mundo e de não experimentar sensações desagradáveis, não apenas físicas – como uma doença terminal -, como sutis. Vergonha, humilhação, solidão e depressão são algumas das causas mentais e emocionais desta via.

A realidade é que taṇhā é, por sua própria natureza, bipolar por conter em si tanto o desejo quanto a aversão; é insatisfatória, insaciável e viciante – ao desejarmos uma coisa, imediatamente geramos a abstinência, a ausência do objeto de nossas vontades; por fim, não é deliberada, ou seja, não é fruto de um pensamento calculado, mas de impulso, de instinto.

Avijja ou avidja pode ser definida como a má compreensão da realidade; ela é uma das três raízes nocivas e corrompidas que nos mantêm presos ao ciclo de reencarnações, de acordo com os Budistas, e tem por companheiras raga, o apego às experiências prazerosas, que é a base dos dois primeiros canais de taṇhā, e dvesha, a aversão de recebermos o que não queremos ou de não recebermos o que queremos, fundamento do terceiro canal.

É essencial pontificar que a tradução de taṇhā como desejo acaba provocando a falsa ideia de que devemos extinguir toda sorte de vontade, o que é incorreto; precisamos entender que existem impulsos dentro de nós que conduzem somente ao sofrimento. No entanto, existe uma maneira de cessar todo esse dukkha e é disso que trata a Terceira Nobre Verdade.

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