Apagando amigos no facebook

por Hugo

Existem dois grupos de estudos famosos sobre as ligações de amizade entre as pessoas. O primeiro e mais comentado é o que diz que, se cada um de nós fosse um pino em um mural e se estivéssemos ligados a todas as pessoas que conhecemos por barbantes, a distância entre você e absolutamente qualquer pessoa do planeta seria equivalente a seis pedaços de barbante, em média. Na realidade, segundo um estudo mais recente, com a internet, os e-mails e as redes sociais, principalmente o facebook, essa distância diminuiu para cinco saltos entre a Rainha Elizabeth e o porteiro do seu prédio – na média, claro. Seu porteiro pode ser muito bem relacionado com a nobreza britânica e estar menos distante.

O segundo conjunto de estudos procura demonstrar cientificamente que é impossível ter, de fato, mais de cem amigos com um grau mínimo de afeição, cuidado e interesse mútuo. Qualquer número para além disso entra pra zona de conhecidos ou ex-amigos cujo relacionamento você reluta em aceitar que terminou.

Até o início da semana passada, eu tinha pouco mais de 550 amigos no facebook. Um número razoável, bem pequeno se comparado àquelas pessoas que tem um ou dois perfis adicionais porque atingiram o limite do permitido pelo site. Alguns desses “amigos” eram ex-colegas de turma e outros, pessoas com quem eu tinha conversado em uma festa e nunca mais troquei um oi. Parte deles era tão diferente de mim que nada do que eles publicavam em suas linhas do tempo me interessava.

Tenho um amigo que há uns cinco anos apagou o orkut dele – naquela época, ninguém daqui tinha facebook. Desde então, ele nunca mais entrou em uma rede social – nem LinkedIn, nem Google+, nem nada. Ele é um perfeito eremita digital. A única coisa que ele mantém é a conta de e-mail do GMail. Claro que não acredito ser necessário chegar nesse nível. O facebook é uma excelente forma de manter contato rápido com as pessoas com que você se importa e receber atualizações de coisas que elas estejam fazendo.

Tentando encontrar um meio-termo, resolvi usar a excelente função de ocultar atualizações de todas as pessoas que me incomodavam. Usei liberalmente, sem dó e sem medo, resolvido a receber apenas o que me trazia algo de positivo – e não necessariamente que eu concordasse, afinal, pensamento costuma crescer quando desafiado de forma inteligente. Silenciei tantas pessoas que minha timeline ficou bem agradável.

Acontece que eu ainda olhava pr’aquele número de quinhentos e sessenta e tantos amigos com incômodo. Eu abria a listagem de amigos e logo dava de cara com pessoas que me causavam uma sensação ruim só de ver o nome ou as fotos. Por pura morbidez e autoflagelo, eu abria a página de alguns deles só para me retorcer mais um pouco olhando atualizações chinfrins.

Foi quando eu resolvi ser o mais franco possível comigo mesmo: se eu reajo dessa forma só de ver a foto dessas pessoas, elas não são minhas amigas, oras. Armado de paciência, porque constantemente o facebook recarregada a página de amigos e embaralhava a ordem de todos eles, fui dando “unfriend” em um monte. Algumas decisões foram muito difíceis, especialmente quando se tratava de amigos de infância ou aquela pessoa que eu achei muito interessante, mas que jamais demonstrou o menor interesse em interagir comigo, mas fui implacável dentro dos meus critérios. A cada grupo de dez ou vinte que eu dispensava, eu fui me sentindo mais satisfeito.

No final, fiquei com 283 amigos.  Ainda é quase o triplo do que o limite teórico de 100 amigos verdadeiros, mas é metade do que eu tinha antes. Quando abro a lista de amigos, cada nome e cada foto me faz pensar “nossa, como eu gosto dessa pessoa…”; “há quanto tempo eu não falo com ela?”; “aquela noite foi muito boa….”

Claro que seus critérios podem ser menos severos que os meus. Mesmo que você só apague as pessoas que você não faz a menor das menores ideias de quem sejam, sugiro fortemente esse exercício de franqueza. Sim, você vai ter bem menos amigos que os seus amigos com milhares de amizades. Sim, você vai ter menos interconexões. Acontece que você já é assim – só está jogando o joguinho de contar como amigos quem nunca foi e dificilmente será.

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